Meu marido não ajuda. Ele faz!

Em 10 de janeiro de 2015 eu nascia como mãe e ali, logo ao meu lado, Bernardo Borges nascia como pai. E que pai!

Be e bbs

Be e os bebês (arquivo pessoal)

A decisão de ter filhos foi tomada totalmente em conjunto e logo o Bernardo se propôs a mudar de vida. Decidiu virar freelance, trabalhando de casa, para poder ter mais tempo ao lado dos futuros rebentos (o que se estendeu a um maior tempo ao meu lado também. Ele esteve comigo em cada ultrassom – e olha que não foram poucos – e consulta pré-natal). Mas não foi só a vida profissional que ele quis mudar. Assim que eu engravidei, passamos a consumir produtos orgânicos – e tentamos seguir essa dieta até hoje, principalmente ao fazer a comida dos meninos – e a ideia de ter uma vida mais calma e perto da natureza permeia quase que diariamente os nossos papos.

Toda essa dedicação pré-filhos se seguiu no pós-parto e nos meses depois. O Be se manteve ao meu lado – e ao lado dos meninos – todos os dias de hospital. Depois, já em casa, ele acordava junto comigo em toda mamada da madrugada e fazia questão de participar dos banhos e das constantes trocas de fralda.

A participação do Be foi determinante nos momentos decisivos da vida de Pedro e Gabriel até hoje. Quando decidimos tirar a chupeta dos meninos, lá pelos 7 meses de idade deles – e o meu primeiro de volta ao trabalho –, a sua calma e determinação foram condicionais para o sucesso da decisão.

Já na fase da introdução alimentar, não vou negar, o BLW (método que consiste em oferecer a comida em pedaços e permite que o bebê se sirva sozinho) só funcionou porque o Bernardo sabia que tudo daria certo, era só uma questão de tempo para eles passarem a comer de tudo numa boa, porque eu mesma não tinha a mesma paciência diante de tamanha sujeira e bagunça.

A minha ideia aqui nesse texto não é apenas homenagear o meu marido nesse dia dos pais. A ideia é aproveitar esse dia para levantar uma discussão: a de que pai não deve ajudar, ele deve fazer! Claro que cada um sabe o tempo que tem. No meu caso, por exemplo, tenho a sorte de o Bernardo ser bastante disponível para os meninos – até mais do que eu durante a semana.

Quando me perguntam se o meu marido ajuda com as tarefas de casa e com os meninos, eu digo que não. Ele não me ajuda, porque, para mim, ajudar pressupõe que o que a pessoa está fazendo não é uma função dela e sim função do outro e o que ele faz é apenas “dar uma mão” na tarefa obrigatória do outro. Por isso, eu digo que não, ele não me ajuda. Ele faz!

Pedro e Gabriel não são só MEUS filhos, são NOSSOS filhos e a educação e formação deles depende de nós dois. Claro que há momentos que os meninos querem estar mais grudados em mim, talvez por eu passar mais tempo fora ou por eles estarem numa fase de querer muito o colo materno, mas isso não impede do Bernardo preparar a janta, aprumar o banho e estar junto na hora de coloca-los na cama.

Sei que cada família tem o seu modelo e que cada um sabe o que é melhor para si. Mas, acredito que há padrões culturais que devem ser quebrados para uma melhor evolução humana e percebo que existem cada vez mais pais querendo desconstruir o modelo de paternidade que está só presente na hora de jogar bola. Para esses pais, parabéns pela mudança de hábito, vocês são foda!

PS: Esse meu relato conta um pouco de como é a relação do Bernardo com os nossos filhos. Para saber mais, ouvir as experiências de outros pais e até compartilhar as suas, participem do Papo de Pai.

O medo de ser mãe de gêmeos

eu e os pequenops

(arquivo pessoal)

Na primeira noite dos meninos em casa, depois de 51 dias de hospital, eu chorei. Não chorei de felicidade. Não chorei de alívio. Não chorei de emoção. Eu chorei de medo! E esse medo se seguiu pelos dois meses seguintes, pelo menos é como eu me lembro.

Não é exagero. Mesmo recebendo a ajuda em tempo integral da minha mãe e a parceria incondicional do meu marido, me sentia totalmente sozinha e tinha certeza absoluta que não ia dar conta da minha nova vida. Fui tomada por um sentimento de impotência muito grande e isso era assustador.

Evitava as visitas. Quando me ligavam querendo conhecer os meninos, me sentia ansiosa. Fazia de tudo para que esses encontros não acontecessem. Suava frio quando estava perto da hora da visita chegar e comemorava, em silêncio, quando desmarcavam. Mesmo os amigos mais íntimos me deixavam em pânico (peço, inclusive, desculpas se me fiz distante).

Uma vez com os amigos em casa, não queria que fossem embora. Cada vez que a porta se fechava, depois dos abraços de despedida, o meu coração se enchia de solidão e mais uma vez, eu chorava.

Por dois meses, vivi um terror constante. Um misto de alegria por ser mãe, por ter Pedro e Gabriel em casa, pela realização do sonho de ter filho, se misturava com esse sentimento de impotência, com a certeza que não daria conta de criar dois bebês. “Por que isso foi acontecer? Eu nunca quis ter gêmeos, por que comigo?”, eu pensava todos os dias.

Mas o que é isso? Por que eu passei por esses questionamentos e medos, mesmo tendo certeza do que queria e de ter tido uma gravidez planejada?

Antes de ter filhos, eu pensava que o puerpério – nome dado à fase pós-parto, em que a mulher passa por modificações físicas e psíquicas – acontecia apenas no período imediatamente seguinte ao parto. Como passei esses primeiros dias acompanhando o desenvolvimento dos meninos no hospital, não imaginei que viveria o puerpério de verdade.

A bem verdade, se seguirmos ao pé da letra o que a medicina define como o puerpério, ele começa logo após o parto e se segue por até 6 semanas, ou 42 dias, para ser mais exata, quando a mulher retorna a sua função ovulatória, ou seja, reprodutiva. Nesse período, o corpo da mulher passa por diversas modificações físicas e as grandes oscilações hormonais também fazem com que a mulher passe por fortes questões emocionais. Não à toa, é comum ver as novas mães chorando pelos cantos, se sentindo tristes e melancólicas.

Hoje, entretanto, consigo perceber que as coisas não funcionam exatamente como estão nos livros – e isso não vale apenas para os contos de fada. Enquanto tentamos nos enquadrar nos diagnósticos apresentados pela literatura médica – e pelo Google também –, acabamos deixando de lado o que realmente estamos sentido, e no fim é isso o que importa, certo?

No meu caso, acho que posso dizer que o puerpério veio bem depois dos 42 dias estipulados pela rigidez da medicina. Claro que meu corpo viveu todas as mudanças físicas do período, mas a parte emocional teve que ser ignorada um pouco para dar lugar a rotina da UTI neo-natal.  Só fui processar tudo o que tinha passado até ali – uma gestação de risco, filhos prematuros, 51 dias de hospital –, quando finalmente levei os meninos para casa. E o que deveria ser um momento de felicidade extrema, se tornou em noites de medo e muita reflexão.

Não foram dias fáceis. Repensar a vontade de ser mãe e se questionar se aquilo realmente tinha sido certo, era terrível. Mas, passou – às vezes volta, mas é passageiro! Conversar com meu marido, minha mãe e amigos foi essencial. Poder me abrir e entender que aquele sentimento era normal, foi fundamental para conseguir superar tudo.

Com tudo isso, ficou bem claro para mim como é importante que cada pessoa consiga se ver como um ser único, um indivíduo. Não somos mães e pronto. Não somos todas farinha do mesmo saco, como as peças publicitárias querem mostrar ou como os ditos populares insistem pregar por aí. Nós somos únicas. Podemos trocar ensinamentos, e considero essencial isso, mas é fundamental entender que cada uma de nós terá a sua própria experiência. Que esse momento do pós-parto será sentido diferente por cada nova mãe que nasce junto com o seu filho.

Quer ler mais sobre isso. Vejam alguns textos sobre o puerpério e relatos de mães que quiseram falar sobre isso:

Precisamos falar sobre o puerpério

O que é puerpério?

Tudo sobre depressão pós-parto e baby blues

 

Idênticos sim. Iguais? Nem tanto!

gêmeos no balde

Gabriel e Pedro iguais e ao mesmo tempo diferentes (fonte: arquivo pessoal)

Pedro e Gabriel são gêmeos idênticos. Por definição eles carregam o mesmo código genético — ou seja, o mesmo DNA. No imaginário popular, é comum pensar que por eles serem idênticos devessem ter o mesmo comportamento e/ou o mesmo desenvolvimento motor e intelectual.

É certo que uma das perguntas que mais me fazem (depois do costumeiro “são idênticos?”, seguido diretamente do “são dois meninos ou um menino e uma menina?”) é se eles se comportam da mesma maneira. A resposta é: não! O intenso convívio me permite ter surpresas diárias com tamanha diferença que existe entre os dois.

Acompanhar e participar ativamente do crescimento dessas duas pessoinhas geneticamente idênticas é uma aula diária de como o meio parece ser determinante para o desenvolvimento de alguém.

Calma, eu não nego de jeito nenhum a biologia e suas teorias evolutivas, que apontam que muitos de nossos comportamentos são inerentes a nós. Concordo que os genes não definiram apenas a cor dos olhos dos meus filhos – aliás, que combinação genética, senhores, afinal eles têm olhos cinzas! Se não, como explicar o olhar de malandro pidão do Pedro ser exatamente como o meu, como diz meu sogro…

Mas é inegável que o meio influencia diretamente o nosso comportamento. Afinal, como  explicar que mesmo tendo os mesmos pais, comendo as refeições no mesmo horário, tendo a mesma babá, os mesmos avós, dormindo no mesmo quarto e tomando banho no mesmo balde, Pedro e Gabriel sejam sim idênticos e ao mesmo tempo tão diferentes?

É que, enquanto Pedro fica tímido ao chegar numa festa e fica se entrelaçando nas minhas pernas, Gabriel sente o ambiente e logo sai andando, interagindo com estranhos. Ou então, como explicar toda a manha que o Pedro faz quando recebe uma negativa ou quando lhe tiram o brinquedo e a quase indiferença de Gabriel quando o irmão pega alguma coisa sua?

Qual a conclusão disso tudo? Não sei exatamente. Talvez a gente nunca consiga definir 100% o que define o ser humano: é só genética? É só o meio? É o meio influenciando na genética ou a genética que influencia no meio? Isso, porque como diz um amigo, muitos estudos que confirmariam o quanto a genética pode determinar o nosso comportamento não podem ser feitos, porque nossa ética não permite matar um bebê para estudar o genoma dele – ufa!

É por isso, meus amigos, que talvez, no fim das contas, mensurar o quanto a biologia ou a cultura é determinante no comportamento seja mais uma crença que tomamos para nós do que uma comprovação científica. E aí, no que você prefere acreditar?

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(fonte: giphy.com)

Link adicional: Série de fotos mostra as diferenças dos gêmeos idênticos

“Felicidade é só questão de ser”

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Dia da alta de Pedro e Gabriel. A técnica de enfermagem Tânia e a enfermeira Larissa cuidaram dos meninos durante o corredor (foto: arquivo pessoal)

Este post é uma homenagem a um dos dias mais importantes e emocionantes da minha vida: a alta da UTI Neonatal dos meninos, que hoje completou um ano.

Domingo. 1º de março de 2015. 10h da manhã. “Essa noite você deve beber uma taça de vinho e relaxar bem, ok?”. Foi a orientação do dr. Pedro.

Segunda-feira, 2 de março de 2015. 5h da manhã. Como fazíamos todos os dias, levantamos cedo. Tomamos um café rápido e saímos de casa. Usamos o caminho de sempre. Como de costume, o Bernardo me deixou na porta do hospital e foi procurar uma vaga para estacionar o carro. Eu segui para o banco de leite. Tudo parecia igual, não fosse o fato que daquele dia em diante, tudo seria totalmente diferente.

8h da manhã. Entrei na sala onde os meninos ficavam. Diferentemente do que via todos os dias, as máquinas de monitoramento estavam desligadas. Pedro e Gabriel estavam ali, sem nenhum fio preso ao seus corpos. Meio tonta, recebi dezenas de orientações de médicos e enfermeiros, todos muito felizes de estarem ali falando comigo. Eu estava quase que anestesiada, não sabia o que sentir.

Meio dia. Macacão verde para o Gabriel e azul para o Pedro. Corre para pagar a conta do hospital. Volta para dar o mamar pros meninos. Com as mãos tremendo, pega todos os exames e o relatório de alta.

1h30 da tarde. Pode dar o play. “Tem vezes que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar”. Com Marcelo Jeneci ao fundo, andamos pelo corredor. Mães, pais, enfermeiros e médicos. Todos ali para homenagear os gêmeos. Palmas. Abraços, beijos e choro – muito choro. 51 dias depois, era hora de ir embora. Mas, desta vez não estávamos sozinhos, Pedro e Gabriel sairiam com a gente.

Era chegado o momento de viver a vida aqui fora❤

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A enfermeira Larissa segura o Gabriel, enquanto nos preparamos para a alta da UTI (foto: arquivo pessoal)

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Foto clássica na entrada da UTI Neonatal com todos os pais e mães (foto: arquivo pessoal)

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Foto clássica na entrada da UTI Neonatal com todos os pais e mães (foto: arquivo pessoal)

 

 

 

Desafio da maternidade: por que não fiz

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(arquivo pessoal)

Essa semana começou a rolar um desafio da maternidade, em que uma mulher é desafiada a postar fotos suas com seus filhos, falar sobre a delícia de ser mãe e depois passar o desafio para frente.

Pois bem, eu fui desafiada por algumas amigas muito queridas. Confesso que fiquei com preguiça de fazer o desafio, mas depois da postagem que vi ontem em grupos de mães, desisti de vez de entrar na brincadeira. Explico:

Uma mãe resolveu fazer um protesto em meio ao desafio. Indo na contra mão da brincadeira, que mostra através de fotos e textos a beleza e delícia de ser mãe, ela falou a sua realidade. Em um texto no Facebook, ela explicou que não aceitava o desafio e relatou as dificuldades que sente com a maternidade. Comenta sobre a falta de apoio, principalmente com mães super jovens; falou de todos os seus perrengues; dos problemas com a amamentação; do cansaço; de como é complicada a dedicação excessiva… Enfim, ela disse que não gostava de ser mãe, mas que amava muito o seu filho. E propôs um novo desafio, o de falarmos sobre maternidade real.

Após o post, a internet caiu matando. O relato foi compartilhado milhares de vezes e a jovem mãe foi xingada e desrespeitada por muita gente. Eu mesma li comentários dizendo que a jovem não deveria ter tido filho, já que pensava assim. A agressividade na rede foi tamanha, que ela foi denunciada pelo Facebook e sua conta acabou deletada.

Mas, afinal de contas, essa mãe estava errada? Na minha opinião, não! O que acho que a maioria das pessoas não entendeu em seu protesto, foi que essa mulher não estava querendo desmerecer ninguém ou que preferia não ter tido filhos, como a maioria apontou. O que ela quis, foi chamar atenção para essa mistificação da maternidade e, principalmente, para o que a sociedade espera de nós, mães.

Eu amo ser mãe? Não sei. Há dias que eu detesto. Em outros eu adoro! É que na realidade eu nunca tive o sonho de ser mãe, mas sempre quis ter filhos. Isso, porque eu sei que socialmente, ser mãe é muito difícil e ainda existe muito preconceito sobre isso. É que ser mãe é ter que continuar ser a mulher de antes, mas com uma vida totalmente diferente. É ser olhada torto pelo chefe logo após a volta da licença maternidade. Ser mãe é ter propostas de emprego recusadas, mesmo você sendo a melhor pessoa para ocupar o cargo naquela empresa. É ter que sair da escola para cuidar do filho. Ser mãe é perder noites de sono enquanto o pai tem que descansar para trabalhar no dia seguinte. Ser mãe é ter febre e não poder ficar de cama. Ser mãe é ter que sair no meio do expediente para atender o filho doente. Ser mãe é ter seu corpo modificado depois do parto. Ser mãe é ver seu peito cair depois da amamentação. Ser mãe é não poder mais sair quando bem entender ou chegar mais tarde em casa. Ser mãe é não ter tempo mais para você. Ser mãe é ter que se manter firme, mesmo depois de três horas de choro do seu filho, sem nenhum motivo aparente. E, muitas vezes, ser mãe é estar sozinha no mundo.

Mas ao mesmo tempo, ser mãe é maravilhoso. É ter orgulho do seu filho. É receber o maior amor que alguém pode ter. É sentir algo dentro da gente que é inexplicável. É querer sorrir quando seu filho sorri para você, mesmo depois da pior noite da sua vida. E olhar para aquele (ou aqueles, no meu caso) serzinho lindo e sentir todo aquele cansaço ir embora.

Ser mãe é muito bom, mas é uma merda!

E sabe, acredito que temos sim que falar sobre isso. Afinal, essa é a proposta desse blog, né?!

Então, gente, da próxima vez que lerem algo como o relato sincero de uma mãe desmistificando a maternidade, antes de julgarem, olhem para si mesmas. Quantas vezes vocês não se perguntaram: “por que mesmo eu quis ter filho?”. Quantas vezes vocês se pegaram pensando se realmente fizeram a coisa certa. E quantas vezes mais tudo isso passou e ficou tudo bem depois.

É isso! Por um mundo com mais autorreflexão e menos julgamentos!

Quando uma mãe vira uma leoa

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(Giphy)

Sempre achei essa analogia de mãe leoa um tanto quanto exagerada. Pensava que ser mãe assim não era muito bom. Essa história de mãe super protetora, que coloca os filhos acima de tudo e briga por eles mesmo estando errada não parecia ser muito a minha. Até a noite de 15 de fevereiro de 2016.

Eram quase oito da noite. As coisas em casa estavam bem caóticas. Pedro e Gabriel choravam sem parar, estavam agitados e com sono. Os dois doentes há quase duas semanas seguidas, imaginem o desconforto. Para piorar, a tosse do Pedro não o deixava respirar direito. Eu correndo para arrumar as coisas e leva-lo ao médico, quando o interfone toca.

Meu marido atende, fala qualquer coisa e desliga. Vira para mim e diz: você não acredita. Acabaram de ligar da portaria para dizer que reclamaram do barulho dos bebês.

Meu sangue subiu. Não pensei duas vezes e liguei de volta.

“Boa noite. É a Mariana do 84, tudo bem?

Quem foi que interfonou reclamando do barulho dos meninos? Ah, do 10º?

Bom, da próxima vez que ligarem você pode passar um recado?

Diz que os meus filhos estão doentes há mais de duas semanas, que eu estou saindo para ir ao hospital com um deles neste minuto.

Explica que nem eu e nem o meu marido estamos felizes com essa situação e com tanto choro, mas que a pessoa quer que eu faça o quê? Que afogue um deles na banheira para ver se o choro passa?

Você me desculpe falar desse jeito, você não tem culpa, mas estou muito nervosa.”

“Claro, senhora. Não se preocupe, você tem razão.”

Desligo o interfone. Me sinto aliviada. Me sinto empoderada. A sensação de mexeu com meus filhos, mexeu comigo nunca foi tão deliciosamente provada por mim. Senti nascer nesse momento uma chama de poder e segurança nunca antes sentida.

A mãe leoa finalmente nasceu. E aviso: ela veio para ficar.

Ps: querido vizinho do 10º andar, aguarde novidades❤

À procura da escola perfeita

escola

(fonte: giphy)

Quando recebi a notícia que seria mãe de gêmeos, achei que estaria preparada para receber qualquer outra notícia que fugisse do meu planejamento. Mas não, acho que nunca vou me acostumar com isso…

Foi assim na última semana, quando a babá, da noite para o dia – literalmente – pediu demissão. Assim, sem mais nem menos, nos vimos (eu e meu marido) sozinhos com os bebês, sem ajuda de ninguém e não podendo deixar nossa rotina de trabalho de lado.

A solução: adiantar os planos e colocar os meninos na escola seis meses antes do previsto. E toca procurar a escola perfeita. Perfeita no valor – afinal são duas mensalidades ao mesmo tempo e agora –, perfeita no espaço – para mim, escola boa é aquela que criança volta suja para casa, se não tem terra embaixo na unha, é porque a criança não aproveitou o dia –, e perfeita na localização.

E o que eu descobri nesta semana de procura? Que as escolas particulares de São Paulo – principalmente da Zona Oeste da cidade – perderam a noção, cobrando um valor exorbitante de mensalidade. Para se ter uma ideia, o preço de partida da maioria das escolas é R$ 1.500, isso para deixar uma criança meio período (que varia de 4 a 5 horas), sem nenhum tipo de alimentação. Se você trabalha o dia todo e precisa que seu filho fique mais tempo na escola, terá que desembolsar, no mínimo, R$ 2.000. E se ainda quiser que ele coma a comida da escola – almoço, lanche e jantar –, vai precisar abrir a carteira mais um pouco, pelo menos uns R$ 500,00 (já chegamos nos R$2,5 mil, certo? Agora multiplica isso por dois…).

Mas calma, que piora. Porque todo esse gasto é para uma escola com uma área pequena, grama artificial, com brinquedos de plástico e um espaço para tomar sol, o “solário” – isso mesmo, como se as crianças vivessem em cárcere privado e tivessem hora certa para tomar sol :O

Como no meu imaginário uma escola infantil tinha que ter tanque de areia, terra, espaço para correr, brinquedos de madeira, enfim, uma escola como a que eu estudei quando criança, tive que procurar longe de casa. Ao que parece, em Perdizes, bairro que moro (na zona oeste de São Paulo), esses tipos de atributos são regalias e encarecem ainda mais esse negócio que chamamos de educação.

Passando para o outro lado da ponte, achamos uma escola muito legal, no bairro do Butantã. Logo que entrei na escola, fiquei muito empolgada. O local parece uma chácara, tem até animais que as crianças ajudam a cuidar! Além do espaço, fomos muito bem recebidos pelas funcionárias da escola e, mais do que isso, quando entramos lá com os pequenos, eles pularam de alegria, sem exagero!

Mas não, ela não é a escola perfeita. Isso, porque a escola perfeita não existe, sempre vai existir algo que deponha de alguma forma contra o local. Pode ser o valor, a localização ou mesmo o espaço – no nosso caso, a escola é longe de casa. No fim, acredito que o que importa mesmo é se nossos filhos estão felizes, seguros e bem cuidados, seja no meio da terra ou no chão de EVA.

Em tempo: estamos na lisa de espera da creche municipal. Enquano nnao somos chamados, precisamos rebolar por aí…

Agradecimentos especiais: Karina Padial e Camila Paier, que perderam um pouco de tempo me ajudando a achar a escola perfeita🙂

Por que tive filhos prematuros

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(Foto: arquivo pessoal)

O esperado é que uma gestação dure 9 meses, ou as incompreensíveis 40 semanas (ok, na real pode variar entre 38 e 42 semanas).  Mas em alguns casos – 15 milhões espalhados pelo mundo, sendo cerca de 340 mil no Brasil, tudo isso por ano –, a gestação dura menos tempo que o esperado. Ou seja, o bebê nasce prematuro.

Em 2015, eu fiz parte desta estatística e não foi fácil. Mas, mais do que ver seu filho vir antes do tempo, e temer as sequelas que ele pode ter por decorrência disso, o difícil mesmo é ouvir as opiniões alheias sobre esse fato.

Eu sempre soube que eles seriam prematuros (somente 30% dos casos de nascimentos prematuros têm explicação científica e eu era um desses casos J) e, talvez por ingenuidade minha, eu gostava de explicar para as pessoas isso. Mas eu sofria muito com as opiniões, afinal, mais do que o clássico “é normal, gêmeos sempre nascem antes do tempo” (ATENÇÃO: isso não é uma regra), eu ouvi de muitas pessoas o quão errado e perigoso era antecipar o parto. E não era qualquer que pessoa: ouvi de médicos essa afirmação (uma vez, inclusive, em pleno natal, duas semanas antes dos meninos nascerem).

Agora, direi algo surpreendente: eu não pedi para que meus filhos fossem prematuros e sempre soube que eles poderiam sofrer com isso. Mas sabe, no meu caso, era isso ou uma consequência bastante definitiva: a morte dos meus bebês.

Minha gestação gemelar foi rara. Entre os médicos ela é chamada de gravidez gemelar monocoriônica/monoamniótica, ou seja, os bebês se desenvolvem em apenas uma placenta e uma bolsa (o mais normal é rolar uma placenta e duas bolsas). Apenas 1 a cada 30 ou 60 mil gestações de gêmeos ocorre dessa forma. Para entender a raridade do caso, é muito possível que um ginecologista obstetra passe a vida toda como médico sem nunca se deparar com uma paciente grávida nessa condição. Isso explica a ignorância de médicos sobre o tema e, mais ainda, das pessoas comuns.

Além de rara, a gravidez mono/mono é considerada de alto risco para os bebês. Como não há divisão entre os fetos, existe uma chance muito alta de ocorrer um entrelaçamento dos cordões umbilicais. E quando isso acontece, os bebês não conseguem receber mais alimentação e nem oxigênio. E aí, isso mesmo, eles podem morrer.

Esse risco existe durante toda a gestação, mas fica mais forte a partir da 32ª semana. Por isso, a indicação médica – isso de quem estuda seriamente esses casos – é de interromper a gravidez entre a 32ª e a 33ª semana, quando o risco de óbito dos bebês passa a ser maior dentro da barriga da mãe do que fora dela.

Ainda bem que no meu caso eu tive o melhor acompanhamento pré-natal possível. Tive o cuidado da dra. Taísa Catania, que mesmo nova, me recebeu e me atendeu com a maturidade que muitos médicos mais velhos não tiveram comigo. E que estudou muito sobre a minha gestação, me passando a segurança necessária para seguir o mais tranquila possível. Além de poder fazer exames com profissionais especializados em gestações gemelares.

Mas mesmo com todo o cuidado do mundo, quando Pedro e Gabriel nasceram, os cordões deles estavam entrelaçados, com mais de um nó. Só descobrimos isso no parto, porque apesar dos inúmeros ultrassons, não era mais possível ver com perfeição os cordões umbilicais.

Felizmente os nós estavam frouxos, mas é impossível dizer em que momento eles podiam apertar. Sim, eles podiam seguir assim até o final da gravidez. Mas também podiam ficar mais firmes do dia para noite. E sinceramente, eu não queria pagar para ver.

 

Fontes: Site da Unicef, Prematuridade.com, Ebc.com

Uma porta sem enfeite

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Na minha porta não havia enfeite. Lembro que quando fui visitar minha cunhada na maternidade, tempos antes, observei um detalhe na decoração igual e monocromática do ambiente: os enfeites pendurados nas portas. Antes de entrar para conhecer minha sobrinha, andei pelo andar, para ver como havia ficado cada porta que guardava um novo bebê que acabara de nascer. Era uma futilidade, dessas coisas que são desperdício de dinheiro mesmo, mas quando entramos no jogo da maternidade, queremos todos esses mimos.

Uma porta branca, meio rococó. Todos os quartos tinham essa mesma porta, mas sempre com um detalhe diferente: o tal enfeite com o nome da criança que estaria ali. Rosa ou lilás para as meninas e azul, amarelo ou verde para os meninos. Eu também queria que minha porta fosse diferente.

“Será que tem pra gêmeos?”. Mas qual seria o sentido? As visitas naquele quarto não iam encontrar nenhum bebê, pelo menos não enquanto eu estivesse ali. Meus bebês não podiam receber visita. Estavam na Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) neonatal, por terem nascido prematuramente.

O telefone toca. É mais uma amiga que faz questão de estar por perto nesse momento delicado e importante da minha vida. “Claro, pode vir. O número do quarto é o 1015. É fácil reconhecer. É o da porta sem enfeite”.

 

 

Um berço vazio

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Oito de janeiro de dois mil e quinze. Dei entrada na maternidade.

Estava muito quente e sentia o meu corpo todo inchar. Depois de mais de cinco horas esperando vagar um quarto no hospital, o ossinho do meu tornozelo já havia sido engolido por uma massa que afundava ao menor toque.

Finalmente consegui um quarto – quinto andar, um dos muitos ocupados pela maternidade. O quarto era muito semelhante a qualquer outro dentro daquele hospital, mas algo chamou minha atenção. Um berço ao lado da cama. A lógica era que ao dar a luz, a mãe voltasse para o quarto e, horas depois, recebesse seu filho ali. Mas desta vez a lógica não se aplicaria e eu já sabia disso.

“Você pode tirar esse berço daqui? Não vamos usá-lo.”

Não podiam me atender: normas do hospital. “Mas eu já sei que meus filhos não virão para cá, vão direto para a UTI.” A negativa continuava. “Infelizmente”, a enfermeira lamentou.

Por mais que eu soubesse que meus filhos não iriam para o quarto, aquele berço, ali, era a realidade batendo à porta, entrando e me dando um soco no estômago. Nenhum bebê naquele quarto ocuparia o berço ao lado da cama. E isso me entristecia.