Um berço vazio

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Oito de janeiro de dois mil e quinze. Dei entrada na maternidade.

Estava muito quente e sentia o meu corpo todo inchar. Depois de mais de cinco horas esperando vagar um quarto no hospital, o ossinho do meu tornozelo já havia sido engolido por uma massa que afundava ao menor toque.

Finalmente consegui um quarto – quinto andar, um dos muitos ocupados pela maternidade. O quarto era muito semelhante a qualquer outro dentro daquele hospital, mas algo chamou minha atenção. Um berço ao lado da cama. A lógica era que ao dar a luz, a mãe voltasse para o quarto e, horas depois, recebesse seu filho ali. Mas desta vez a lógica não se aplicaria e eu já sabia disso.

“Você pode tirar esse berço daqui? Não vamos usá-lo.”

Não podiam me atender: normas do hospital. “Mas eu já sei que meus filhos não virão para cá, vão direto para a UTI.” A negativa continuava. “Infelizmente”, a enfermeira lamentou.

Por mais que eu soubesse que meus filhos não iriam para o quarto, aquele berço, ali, era a realidade batendo à porta, entrando e me dando um soco no estômago. Nenhum bebê naquele quarto ocuparia o berço ao lado da cama. E isso me entristecia.

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10 frases que uma mãe de gêmeos idênticos ouve – quase – todos os dias

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(foto: arquivo pessoal)

Ser mãe é ser bombardeada a todo minuto por perguntas e afirmações – nem sempre as mais gentis – de amigos e estranhos.  Você deve imaginar que para uma mãe de gêmeos, tudo vem em dose dupla, certo?

Pois é. Agora, devo dizer que para uma mãe de gêmeos idênticos a coisa vai para um nível que beira o insuportável. É sério, as pessoas não têm papas na língua, falam qualquer coisa, mesmo as mais horríveis e inconvenientes.

Para tentar deixar o clima lá no alto neste fim de 2015, resolvi listar aqui as pérolas que ouvi no último ano – tem coisa de quando eu estava grávida ainda. Algumas são engraçadas, outras doeram quando ouvi, mas a maioria é repetição da mesma ideia – povo, bora ser mais original quando falar com uma mãe de gêmeos idênticos, combinado?

Para os amigos que disseram qualquer coisa listada abaixo, eu perdoo vocês. Aos estranhos: mais filtro em 2016.

1 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal! E é um menino e uma menina?”

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– Você entendeu o conceito de idênticos, certo?

2 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal. E os dois têm olhos claros ou só um deles?”

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3 – “Eles são idênticos?

Sim!

e coloque qualquer frase a sua escolha”

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– Pessoal, vamos recapitular: gêmeos idênticos possuem o mesmo DNA. Eles podem até ter uma coisinha diferente, por conta da alguma formação que não seja genética. Mas tudo o que for definido pelo gene (como cor dos olhos, cor de cabelo e até as covinhas), se um tiver,  o outro também tem. Sabe clone? Então, são meus filhos.

4 – “Qual dos dois têm gêmeos na família?

Nenhum de nós.

Ah…”

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– É sempre engraçado ver a cara de “me enganaram na escola quando aprendi sobre gêmeos” das pessoas…

5 – “Tadinhos. São tão pequenos, né?!”

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– Cri… cri… cri…

6 – “Pena que não são um casal. Seria bem melhor, né?!”

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– Não são um casal segundo quem? Já ouviu falar que homem e homem também podem formar um casal? Vamos modernizar as relações…

7 – “Que lindos! Como eles nasceram tão lindos assim?”

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– De mim que não foi, pelo visto, afinal sou o cão chupando manga do avesso. Obrigada por me mostrar isso…

8 – “Ih, eles serão prematuros? Você sabe que eles podem ter várias sequelas por isso, né?”

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– Sequelado é o senhor, que tem a sensibilidade de um javali.

9 – “São duas meninas ou um menino e uma menina?”

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– Ainda não descobri qual dos meninos as pessoas sempre pensam ser uma menina…

10 – “Quantos meses eles têm? 5 ?

Não, acabaram de fazer 11.

Nossa, é que eu não faço ideia de tamanho de bebê”

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– Então porque você arrisca a idade deles, não é mesmo?

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*todos os gifs foram baixados do site giphy.com

Parto cesárea humanizado – isso existe

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Pedro e Gabriel ainda na sala de parto, minutos antes de seguirem para a UTI (Foto: Bernardo Borges)

A princípio meu parto não ocorreu como eu queria. Explico. Antes mesmo de engravidar, imaginava que teria um parto normal. Seguiria para o hospital quando começasse a sentir contrações. Após um período de dor intensa, receberia meu bebê nos braços, em meio a lágrimas e sorrisos. Tipo cena de novela mesmo. Meu filho viria na hora dele. Mas aí descobri que estava esperando gêmeos e que minha gestação era de risco.

Tudo mudou.

Sim, eu teria que marcar a data do parto. Sim, teria que fazer uma cesárea. Sim, meus filhos teriam que nascer prematuros. Sim, isso significava que eles não estavam prontos para nascer e precisariam de cuidados imediatos.

Apesar de tantos “SIM”, a parte mais linda do meu parto veio de um sonoro “não” da minha obstetra e da pediatra que escolhi para os bebês. Não, eles não precisariam ir correndo para a UTI. Eu poderia ficar com eles, se tudo corresse bem.

E tudo correu bem.

Mesmo sem nunca ter sonhado com isso – nem imaginar que isso existia -, tive um parto cesárea humanizado. E às 18h43 daquele sábado, 10 de janeiro de 2015, Pedro nasceu e veio direto para os meus braços. Apenas um minuto e meio depois, Gabriel também pode ficar comigo. Os dois permaneceram ali, ligados a mim, literalmente – os cordões umbilicais continuaram conectados com a minha placenta por no mínimo 3 minutos -, e deitados sobre meu peito por cerca de 10 minutos. Os minutos mais longos e transformadores da minha vida. Tive um parto prematuro diferente da maioria. E sobre isso, só tenho a agradecer!

*Agraecimentos especiais: Taísa Catania (minha obstetra e amiga mais do que amada) e Silvia Maia (pediatra dos meninos e parceira de toda hora)

Senado aprova lei que determina extensão de licença maternidade para mães de prematuros

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Pedro na UTI do hospital São Luiz (Foto: Arquivo pessoal)

Taí uma vitória. Na última quarta-feira (9/12), o Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 99/2015, de autoria do senador do PSDB Aécio Neves, que determina uma maior licença maternidade para mães que tiverem filhos prematuros. De acordo com a proposta, a licença obrigatória de 120 dias começaria a valer a partir da alta do bebê do hospital.

Um acordo com o governo, para assegurar a votação da PEC, incluiu emenda restringindo a licença ao tempo máximo de 12 meses – sendo 120 dias de licença e oito meses de internação.

Vale lembrar que a proposta atinge apenas as mães com filhos nascidos entre a 20ª e a 30ª semanas. O texto ainda precisa ser aprovado na Câmara dos Deputados para entrar em vigor.

Infelizmente, se já estivesse em vigor, essa nova lei não valeria para mim. Gabriel e Pedro nasceram de 32 semanas e acabaram ficando 51 dias no hospital. 51 dias de um tempo precioso que poderia gastar com eles em casa, dando muita atenção, carinho, amor e estimulando o desenvolvimento deles.

De qualquer forma, sim, isso é uma vitória excepcional. No tempo que fiquei no hospital, conheci mães que perderam toda a licença maternidade – e as vezes até mais – aguardando a alta do seu filho. Tempo esse que jamais será recuperado e que seria essencial para o desenvolvimento do bebês. Afinal, nesse período, além de poder garantir a amamentação em tempo integral, a mãe e seu bebê também estabelecem uma relação de amor e afeto que, segundo especialistas, é essencial para que ele se sinta seguro, acolhido e amado, além de estimular conexões neurais em seu cérebro, que serão fundamentais para a sua inteligência emocional.

Que a Câmara, apesar de viver o seu pior momento e abrigar os piores seres humanos em seu interior, tenha sabedoria para aprovar essa PEC que, sem exageros, é essencial para o futuro desse país.

São gêmeos! E agora?!

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20 de agosto de 2014. A data ficou marcada na memória, porque foi o dia que minha vida mudou completamente.

Deitada na sala de exames, meu coração estava disparado. Acabara de terminar o primeiro trimestre da gravidez e finalmente veria a carinha do meu bebê – sim, bebê mesmo, no singular! Mais do que isso, o exame morfológico do terceiro trimestre detectaria alguma má formação do feto e isso me deixava apreensiva.

– Bom dia mãe, vamos começar. Vai ser um pouco gelado no começo, não se assuste.

Mal sabia que o principal susto seria muito mais do que o gel gelado na minha barriga.

E segue o diálogo:

– São dois, né?! – perguntou a enfermeira.

– Não, é um só! – respondi.

– Sim, são dois! – ela insistiu.

– Não, tenho certeza, é um só! – retruquei impaciente.

– Olha aqui. São dois: o primeiro (ela passou o ultrassom no lado esquerdo da minha barriga) e o segundo (deslizando para o lado direito).

Perplexa, ainda não acreditava. Na minha cabeça, a enfermeira estava zoando, me mostrando o exame da paciente anterior.

– São gêmeos sim e já vou avisando, porque sei que você vai sair daqui e olhar no google. Eles estão dividindo a mesma placenta e a mesma bolsa. Você tem uma gravidez de risco, eles terão que nascer prematuros.

Olhava para o meu marido incrédula. Parei de escutar na parte do: são gêmeos. Não compreendia como isso podia estar acontecendo. Nunca pensei em ter gêmeos, pelo contrário, sempre dizia que não queria isso.

Saí da sala em estado de choque. Passei o dia no trabalho mostrando meu exame para todos os colegas, era uma tentativa de tentar compreender o que estava acontecendo.

A noite, já em casa, eu chorava, copiosamente, com medo do futuro. Sempre quis engravidar, mas de gêmeos? Como era possível cuidar de dois bebês ao mesmo tempo? E o enxoval? E a amamentação? E as fraldas? E a escola? E a faculdade? E as viagens? E as idas ao cinema? E as saídas para os restaurantes? E a vida, como seria a partir de agora?

Começando

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(foto: Bernardo Borges)

Em 20 de agosto de 2014, descobri que estava grávida de gêmeos. Todas as minhas expectativas e planos de gravidez tinham ido por água abaixo. E com esse tapa na cara da vida, cresceu em mim uma vontade enorme de relatar o que eu estava vivendo, de uma forma mais real – e não cheia de romance como costumam ser os relatos sobre gravidez e vida de mãe.

Demorei muito para conseguir fazer essa ideia virar realidade, mas finalmente aconteceu. Um ano e quatro meses depois, eis que hoje estreio o meu primeiro blog: Uma Mãe de Dois.

Espero que gostem da leitura, dos vídeos, das fotos, dos relatos. 🙂