O post definitivo sobre gêmeos ou por que qualquer pessoa pode ser mãe de dois

 

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Fonte: giphy.com

“Você ou o seu marido têm gêmeos na sua família?”. Essa talvez tenha sido a pergunta que eu mais ouvi nos últimos dois anos e meio, desde o dia que descobri que seria mãe de dois. Pode parecer irritante ter que responder essa questão para toda pessoa que descobre – ok, a maioria das pessoas sou eu mesma que conto – que sou mãe de gêmeos. Mas, para falar a verdade, eu adoro falar sobre isso.

Quando engravidei, a possibilidade de ter uma gestação gemelar não me era uma preocupação. No alto do meu conhecimento sobre gêmeos, entendia – pelo que lembrava do que aprendi na escola – que esse tipo de gestação era genética e uma não existindo nenhum caso desse na minha família, eu estava “segura”.  Por isso, quando descobri que seria mãe de gêmeos, eu surtei, como vocês podem ler no meu relato.

Passado o susto, foi o momento de me informar. Como era possível estar grávida de gêmeos? O que queria dizer o fato de eles serem idênticos? O que significa a sigla mono/mono? Eram tantas as minhas dúvidas – e a de todas as pessoas que conversam comigo sobre isso –, que achei interessante escrever sobre o tema. Sei que é bem prepotente chamar de definitivo esse post, até porque a própria ciência ainda está engatinhando no que diz respeito à gravidez de gêmeos, ainda mais os idênticos, mas segue todas as informações que juntei nesses quase três anos lendo e ouvindo sobre o tema.

Os tipos de gravidez gemelar

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Fonte: giphy.com

Existem dois tipos de gestações de gêmeos: a bivitelina e a univitelina, que pode gerar três tipos diferentes de gestações, a dicoriônica e diamniótica, a monocoriônica e diamniótica e a monocoriônica e monoamniótica.

A gestação bivitelina é aquela que forma os gêmeos fraternos, ou diferentes. Ela ocorre quando dois óvulos são fecundados, formando assim dois embriões totalmente distintos. Esse é o tipo de gestação dita genética. O fator genético é a questão de a mulher liberar mais de um óvulo enquanto está ovulando. Antigamente acreditava-se que essa característica era apenas passada de mães para filhas. Mas, recentemente essa teoria foi desmistificada, como mostra o livro “Gêmeos e Múltiplos. Tudo o que os Pais Precisam Saber”, da editora Manole e escrito pelos pediatras  Renata Dejtiar Waksman e Cláudio Schvartsman. De acordo com a publicação, a característica genética pode ser passada por ambos os pais para as suas filhas.

Sim, filhas! Lembre-se, o gene tem que ser ativo na mulher, afinal é ela quem ovula.

Esse tipo de gestação é a mais frequente, principalmente por conta dos tratamentos hormonais ou das inseminações artificiais. Ainda de acordo com o livro de Waksman e de Schvartsman, por conta dos tratamentos de fertilização, a ocorrência da gestação bivitelina é de 30 partos desse tipo para cada mil.

A gestação univitelina, aquela que forma gêmeos idênticos, ocorre quando um óvulo é fecundado, mas durante a divisão celular, as células se dividem de tal forma que acabam gerando dois embriões. E, pasmem, esse tipo de gestão é totalmente ao acaso, ou seja, qualquer pessoa (como eu) pode ter.

Esse tipo de gestação pode ocorrer de três formas distintas e o que vai definir isso é o tempo da divisão celular:

– duas placentas e duas bolsas (dicoriônica e diamniótica): assim como nos gêmeos fraternos, os gêmeos idênticos também podem se formar a partir de duas placentas e duas bolsas. Esse tipo de gestação ocorre logo no início da divisão celular do embrião. São casos mais raros, mas eles existem.

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Fonte: Wikipedia

“Nossa, mas então como saber se os gêmeos serão idênticos ou não?”. Se os bebês tiverem o mesmo sexo, só será possível saber com certeza no nascimento, em eles sendo muito diferentes, mas para ter 100% de certeza, só fazendo um exame de DNA mesmo.

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Fonte: Wikipedia

– uma placenta e duas bolsas (monocoriônica e diamniótica): esse é o tipo de gestação mais comum entre os gêmeos univitelinos, mais de 70% dos casos de gêmeos idênticos são deste tipo. Nesta gestação, a divisão embrionária ocorre entre o 4º e 8º dia após a fertilização.

– uma placenta e uma bolsa (monocoriônica e monoamniótica): nesta condição de gestação, os bebês se desenvolvem totalmente no mesmo ambiente. É um caso bem raro. Apenas 1% dos gêmeos idênticos é formado dessa forma.

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Fonte: Wikipedia

A gestação mono/mono acontece quando a divisão embrionária ocorre depois do 8º dia. Nela há um risco bem alto de os cordões umbilicais dos bebês se entrelacem, formando um nó que, se muito apertado, interrompe os suprimentos dos fetos. Não à toa, a indicação para essas gestações é que sejam interrompidas entre 32 e 33 semanas, quando o risco deste entrelaçamento é aumentado.

Gêmeos siameses
Também gerados em uma mesma placenta e mesma bolsa, a ocorrência de gêmeos conjugados, ou siameses (referência ao local de nascimento, Sião – atual Tailândia –, dos gêmeos conjugados mais famosos da história moderna), está ligada ao momento da divisão celular do embrião.

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Fonte: Wikipedia

Para ocorrer uma separaçãoembrionária adequada, ela deve ocorrer entre o 3º e o 13º dia de fertilização. No caso dos gêmeos siameses, essa separação é mais tardia, acontecendo entre o 15º e o 17º dia depois da fertilização.

Fonte: “Gêmeos e Múltiplos. Tudo o que os Pais Precisam Saber”, da editora Manole e escrito pelos pediatras  Renata Dejtiar Waksman e Cláudio Schvartsman
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Meu marido não ajuda. Ele faz!

Em 10 de janeiro de 2015 eu nascia como mãe e ali, logo ao meu lado, Bernardo Borges nascia como pai. E que pai!

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Be e os bebês (arquivo pessoal)

A decisão de ter filhos foi tomada totalmente em conjunto e logo o Bernardo se propôs a mudar de vida. Decidiu virar freelance, trabalhando de casa, para poder ter mais tempo ao lado dos futuros rebentos (o que se estendeu a um maior tempo ao meu lado também. Ele esteve comigo em cada ultrassom – e olha que não foram poucos – e consulta pré-natal). Mas não foi só a vida profissional que ele quis mudar. Assim que eu engravidei, passamos a consumir produtos orgânicos – e tentamos seguir essa dieta até hoje, principalmente ao fazer a comida dos meninos – e a ideia de ter uma vida mais calma e perto da natureza permeia quase que diariamente os nossos papos.

Toda essa dedicação pré-filhos se seguiu no pós-parto e nos meses depois. O Be se manteve ao meu lado – e ao lado dos meninos – todos os dias de hospital. Depois, já em casa, ele acordava junto comigo em toda mamada da madrugada e fazia questão de participar dos banhos e das constantes trocas de fralda.

A participação do Be foi determinante nos momentos decisivos da vida de Pedro e Gabriel até hoje. Quando decidimos tirar a chupeta dos meninos, lá pelos 7 meses de idade deles – e o meu primeiro de volta ao trabalho –, a sua calma e determinação foram condicionais para o sucesso da decisão.

Já na fase da introdução alimentar, não vou negar, o BLW (método que consiste em oferecer a comida em pedaços e permite que o bebê se sirva sozinho) só funcionou porque o Bernardo sabia que tudo daria certo, era só uma questão de tempo para eles passarem a comer de tudo numa boa, porque eu mesma não tinha a mesma paciência diante de tamanha sujeira e bagunça.

A minha ideia aqui nesse texto não é apenas homenagear o meu marido nesse dia dos pais. A ideia é aproveitar esse dia para levantar uma discussão: a de que pai não deve ajudar, ele deve fazer! Claro que cada um sabe o tempo que tem. No meu caso, por exemplo, tenho a sorte de o Bernardo ser bastante disponível para os meninos – até mais do que eu durante a semana.

Quando me perguntam se o meu marido ajuda com as tarefas de casa e com os meninos, eu digo que não. Ele não me ajuda, porque, para mim, ajudar pressupõe que o que a pessoa está fazendo não é uma função dela e sim função do outro e o que ele faz é apenas “dar uma mão” na tarefa obrigatória do outro. Por isso, eu digo que não, ele não me ajuda. Ele faz!

Pedro e Gabriel não são só MEUS filhos, são NOSSOS filhos e a educação e formação deles depende de nós dois. Claro que há momentos que os meninos querem estar mais grudados em mim, talvez por eu passar mais tempo fora ou por eles estarem numa fase de querer muito o colo materno, mas isso não impede do Bernardo preparar a janta, aprumar o banho e estar junto na hora de coloca-los na cama.

Sei que cada família tem o seu modelo e que cada um sabe o que é melhor para si. Mas, acredito que há padrões culturais que devem ser quebrados para uma melhor evolução humana e percebo que existem cada vez mais pais querendo desconstruir o modelo de paternidade que está só presente na hora de jogar bola. Para esses pais, parabéns pela mudança de hábito, vocês são foda!

PS: Esse meu relato conta um pouco de como é a relação do Bernardo com os nossos filhos. Para saber mais, ouvir as experiências de outros pais e até compartilhar as suas, participem do Papo de Pai.

O medo de ser mãe de gêmeos

eu e os pequenops

(arquivo pessoal)

Na primeira noite dos meninos em casa, depois de 51 dias de hospital, eu chorei. Não chorei de felicidade. Não chorei de alívio. Não chorei de emoção. Eu chorei de medo! E esse medo se seguiu pelos dois meses seguintes, pelo menos é como eu me lembro.

Não é exagero. Mesmo recebendo a ajuda em tempo integral da minha mãe e a parceria incondicional do meu marido, me sentia totalmente sozinha e tinha certeza absoluta que não ia dar conta da minha nova vida. Fui tomada por um sentimento de impotência muito grande e isso era assustador.

Evitava as visitas. Quando me ligavam querendo conhecer os meninos, me sentia ansiosa. Fazia de tudo para que esses encontros não acontecessem. Suava frio quando estava perto da hora da visita chegar e comemorava, em silêncio, quando desmarcavam. Mesmo os amigos mais íntimos me deixavam em pânico (peço, inclusive, desculpas se me fiz distante).

Uma vez com os amigos em casa, não queria que fossem embora. Cada vez que a porta se fechava, depois dos abraços de despedida, o meu coração se enchia de solidão e mais uma vez, eu chorava.

Por dois meses, vivi um terror constante. Um misto de alegria por ser mãe, por ter Pedro e Gabriel em casa, pela realização do sonho de ter filho, se misturava com esse sentimento de impotência, com a certeza que não daria conta de criar dois bebês. “Por que isso foi acontecer? Eu nunca quis ter gêmeos, por que comigo?”, eu pensava todos os dias.

Mas o que é isso? Por que eu passei por esses questionamentos e medos, mesmo tendo certeza do que queria e de ter tido uma gravidez planejada?

Antes de ter filhos, eu pensava que o puerpério – nome dado à fase pós-parto, em que a mulher passa por modificações físicas e psíquicas – acontecia apenas no período imediatamente seguinte ao parto. Como passei esses primeiros dias acompanhando o desenvolvimento dos meninos no hospital, não imaginei que viveria o puerpério de verdade.

A bem verdade, se seguirmos ao pé da letra o que a medicina define como o puerpério, ele começa logo após o parto e se segue por até 6 semanas, ou 42 dias, para ser mais exata, quando a mulher retorna a sua função ovulatória, ou seja, reprodutiva. Nesse período, o corpo da mulher passa por diversas modificações físicas e as grandes oscilações hormonais também fazem com que a mulher passe por fortes questões emocionais. Não à toa, é comum ver as novas mães chorando pelos cantos, se sentindo tristes e melancólicas.

Hoje, entretanto, consigo perceber que as coisas não funcionam exatamente como estão nos livros – e isso não vale apenas para os contos de fada. Enquanto tentamos nos enquadrar nos diagnósticos apresentados pela literatura médica – e pelo Google também –, acabamos deixando de lado o que realmente estamos sentido, e no fim é isso o que importa, certo?

No meu caso, acho que posso dizer que o puerpério veio bem depois dos 42 dias estipulados pela rigidez da medicina. Claro que meu corpo viveu todas as mudanças físicas do período, mas a parte emocional teve que ser ignorada um pouco para dar lugar a rotina da UTI neo-natal.  Só fui processar tudo o que tinha passado até ali – uma gestação de risco, filhos prematuros, 51 dias de hospital –, quando finalmente levei os meninos para casa. E o que deveria ser um momento de felicidade extrema, se tornou em noites de medo e muita reflexão.

Não foram dias fáceis. Repensar a vontade de ser mãe e se questionar se aquilo realmente tinha sido certo, era terrível. Mas, passou – às vezes volta, mas é passageiro! Conversar com meu marido, minha mãe e amigos foi essencial. Poder me abrir e entender que aquele sentimento era normal, foi fundamental para conseguir superar tudo.

Com tudo isso, ficou bem claro para mim como é importante que cada pessoa consiga se ver como um ser único, um indivíduo. Não somos mães e pronto. Não somos todas farinha do mesmo saco, como as peças publicitárias querem mostrar ou como os ditos populares insistem pregar por aí. Nós somos únicas. Podemos trocar ensinamentos, e considero essencial isso, mas é fundamental entender que cada uma de nós terá a sua própria experiência. Que esse momento do pós-parto será sentido diferente por cada nova mãe que nasce junto com o seu filho.

Quer ler mais sobre isso. Vejam alguns textos sobre o puerpério e relatos de mães que quiseram falar sobre isso:

Precisamos falar sobre o puerpério

O que é puerpério?

Tudo sobre depressão pós-parto e baby blues

 

Idênticos sim. Iguais? Nem tanto!

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Gabriel e Pedro iguais e ao mesmo tempo diferentes (fonte: arquivo pessoal)

Pedro e Gabriel são gêmeos idênticos. Por definição eles carregam o mesmo código genético — ou seja, o mesmo DNA. No imaginário popular, é comum pensar que por eles serem idênticos devessem ter o mesmo comportamento e/ou o mesmo desenvolvimento motor e intelectual.

É certo que uma das perguntas que mais me fazem (depois do costumeiro “são idênticos?”, seguido diretamente do “são dois meninos ou um menino e uma menina?”) é se eles se comportam da mesma maneira. A resposta é: não! O intenso convívio me permite ter surpresas diárias com tamanha diferença que existe entre os dois.

Acompanhar e participar ativamente do crescimento dessas duas pessoinhas geneticamente idênticas é uma aula diária de como o meio parece ser determinante para o desenvolvimento de alguém.

Calma, eu não nego de jeito nenhum a biologia e suas teorias evolutivas, que apontam que muitos de nossos comportamentos são inerentes a nós. Concordo que os genes não definiram apenas a cor dos olhos dos meus filhos – aliás, que combinação genética, senhores, afinal eles têm olhos cinzas! Se não, como explicar o olhar de malandro pidão do Pedro ser exatamente como o meu, como diz meu sogro…

Mas é inegável que o meio influencia diretamente o nosso comportamento. Afinal, como  explicar que mesmo tendo os mesmos pais, comendo as refeições no mesmo horário, tendo a mesma babá, os mesmos avós, dormindo no mesmo quarto e tomando banho no mesmo balde, Pedro e Gabriel sejam sim idênticos e ao mesmo tempo tão diferentes?

É que, enquanto Pedro fica tímido ao chegar numa festa e fica se entrelaçando nas minhas pernas, Gabriel sente o ambiente e logo sai andando, interagindo com estranhos. Ou então, como explicar toda a manha que o Pedro faz quando recebe uma negativa ou quando lhe tiram o brinquedo e a quase indiferença de Gabriel quando o irmão pega alguma coisa sua?

Qual a conclusão disso tudo? Não sei exatamente. Talvez a gente nunca consiga definir 100% o que define o ser humano: é só genética? É só o meio? É o meio influenciando na genética ou a genética que influencia no meio? Isso, porque como diz um amigo, muitos estudos que confirmariam o quanto a genética pode determinar o nosso comportamento não podem ser feitos, porque nossa ética não permite matar um bebê para estudar o genoma dele – ufa!

É por isso, meus amigos, que talvez, no fim das contas, mensurar o quanto a biologia ou a cultura é determinante no comportamento seja mais uma crença que tomamos para nós do que uma comprovação científica. E aí, no que você prefere acreditar?

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(fonte: giphy.com)

Link adicional: Série de fotos mostra as diferenças dos gêmeos idênticos

“Felicidade é só questão de ser”

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Dia da alta de Pedro e Gabriel. A técnica de enfermagem Tânia e a enfermeira Larissa cuidaram dos meninos durante o corredor (foto: arquivo pessoal)

Este post é uma homenagem a um dos dias mais importantes e emocionantes da minha vida: a alta da UTI Neonatal dos meninos, que hoje completou um ano.

Domingo. 1º de março de 2015. 10h da manhã. “Essa noite você deve beber uma taça de vinho e relaxar bem, ok?”. Foi a orientação do dr. Pedro.

Segunda-feira, 2 de março de 2015. 5h da manhã. Como fazíamos todos os dias, levantamos cedo. Tomamos um café rápido e saímos de casa. Usamos o caminho de sempre. Como de costume, o Bernardo me deixou na porta do hospital e foi procurar uma vaga para estacionar o carro. Eu segui para o banco de leite. Tudo parecia igual, não fosse o fato que daquele dia em diante, tudo seria totalmente diferente.

8h da manhã. Entrei na sala onde os meninos ficavam. Diferentemente do que via todos os dias, as máquinas de monitoramento estavam desligadas. Pedro e Gabriel estavam ali, sem nenhum fio preso ao seus corpos. Meio tonta, recebi dezenas de orientações de médicos e enfermeiros, todos muito felizes de estarem ali falando comigo. Eu estava quase que anestesiada, não sabia o que sentir.

Meio dia. Macacão verde para o Gabriel e azul para o Pedro. Corre para pagar a conta do hospital. Volta para dar o mamar pros meninos. Com as mãos tremendo, pega todos os exames e o relatório de alta.

1h30 da tarde. Pode dar o play. “Tem vezes que as coisas pesam mais do que a gente acha que pode aguentar”. Com Marcelo Jeneci ao fundo, andamos pelo corredor. Mães, pais, enfermeiros e médicos. Todos ali para homenagear os gêmeos. Palmas. Abraços, beijos e choro – muito choro. 51 dias depois, era hora de ir embora. Mas, desta vez não estávamos sozinhos, Pedro e Gabriel sairiam com a gente.

Era chegado o momento de viver a vida aqui fora ❤

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A enfermeira Larissa segura o Gabriel, enquanto nos preparamos para a alta da UTI (foto: arquivo pessoal)

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Foto clássica na entrada da UTI Neonatal com todos os pais e mães (foto: arquivo pessoal)

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Foto clássica na entrada da UTI Neonatal com todos os pais e mães (foto: arquivo pessoal)

 

 

 

À procura da escola perfeita

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(fonte: giphy)

Quando recebi a notícia que seria mãe de gêmeos, achei que estaria preparada para receber qualquer outra notícia que fugisse do meu planejamento. Mas não, acho que nunca vou me acostumar com isso…

Foi assim na última semana, quando a babá, da noite para o dia – literalmente – pediu demissão. Assim, sem mais nem menos, nos vimos (eu e meu marido) sozinhos com os bebês, sem ajuda de ninguém e não podendo deixar nossa rotina de trabalho de lado.

A solução: adiantar os planos e colocar os meninos na escola seis meses antes do previsto. E toca procurar a escola perfeita. Perfeita no valor – afinal são duas mensalidades ao mesmo tempo e agora –, perfeita no espaço – para mim, escola boa é aquela que criança volta suja para casa, se não tem terra embaixo na unha, é porque a criança não aproveitou o dia –, e perfeita na localização.

E o que eu descobri nesta semana de procura? Que as escolas particulares de São Paulo – principalmente da Zona Oeste da cidade – perderam a noção, cobrando um valor exorbitante de mensalidade. Para se ter uma ideia, o preço de partida da maioria das escolas é R$ 1.500, isso para deixar uma criança meio período (que varia de 4 a 5 horas), sem nenhum tipo de alimentação. Se você trabalha o dia todo e precisa que seu filho fique mais tempo na escola, terá que desembolsar, no mínimo, R$ 2.000. E se ainda quiser que ele coma a comida da escola – almoço, lanche e jantar –, vai precisar abrir a carteira mais um pouco, pelo menos uns R$ 500,00 (já chegamos nos R$2,5 mil, certo? Agora multiplica isso por dois…).

Mas calma, que piora. Porque todo esse gasto é para uma escola com uma área pequena, grama artificial, com brinquedos de plástico e um espaço para tomar sol, o “solário” – isso mesmo, como se as crianças vivessem em cárcere privado e tivessem hora certa para tomar sol :O

Como no meu imaginário uma escola infantil tinha que ter tanque de areia, terra, espaço para correr, brinquedos de madeira, enfim, uma escola como a que eu estudei quando criança, tive que procurar longe de casa. Ao que parece, em Perdizes, bairro que moro (na zona oeste de São Paulo), esses tipos de atributos são regalias e encarecem ainda mais esse negócio que chamamos de educação.

Passando para o outro lado da ponte, achamos uma escola muito legal, no bairro do Butantã. Logo que entrei na escola, fiquei muito empolgada. O local parece uma chácara, tem até animais que as crianças ajudam a cuidar! Além do espaço, fomos muito bem recebidos pelas funcionárias da escola e, mais do que isso, quando entramos lá com os pequenos, eles pularam de alegria, sem exagero!

Mas não, ela não é a escola perfeita. Isso, porque a escola perfeita não existe, sempre vai existir algo que deponha de alguma forma contra o local. Pode ser o valor, a localização ou mesmo o espaço – no nosso caso, a escola é longe de casa. No fim, acredito que o que importa mesmo é se nossos filhos estão felizes, seguros e bem cuidados, seja no meio da terra ou no chão de EVA.

Em tempo: estamos na lisa de espera da creche municipal. Enquano nnao somos chamados, precisamos rebolar por aí…

Agradecimentos especiais: Karina Padial e Camila Paier, que perderam um pouco de tempo me ajudando a achar a escola perfeita 🙂

Por que tive filhos prematuros

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(Foto: arquivo pessoal)

O esperado é que uma gestação dure 9 meses, ou as incompreensíveis 40 semanas (ok, na real pode variar entre 38 e 42 semanas).  Mas em alguns casos – 15 milhões espalhados pelo mundo, sendo cerca de 340 mil no Brasil, tudo isso por ano –, a gestação dura menos tempo que o esperado. Ou seja, o bebê nasce prematuro.

Em 2015, eu fiz parte desta estatística e não foi fácil. Mas, mais do que ver seu filho vir antes do tempo, e temer as sequelas que ele pode ter por decorrência disso, o difícil mesmo é ouvir as opiniões alheias sobre esse fato.

Eu sempre soube que eles seriam prematuros (somente 30% dos casos de nascimentos prematuros têm explicação científica e eu era um desses casos J) e, talvez por ingenuidade minha, eu gostava de explicar para as pessoas isso. Mas eu sofria muito com as opiniões, afinal, mais do que o clássico “é normal, gêmeos sempre nascem antes do tempo” (ATENÇÃO: isso não é uma regra), eu ouvi de muitas pessoas o quão errado e perigoso era antecipar o parto. E não era qualquer que pessoa: ouvi de médicos essa afirmação (uma vez, inclusive, em pleno natal, duas semanas antes dos meninos nascerem).

Agora, direi algo surpreendente: eu não pedi para que meus filhos fossem prematuros e sempre soube que eles poderiam sofrer com isso. Mas sabe, no meu caso, era isso ou uma consequência bastante definitiva: a morte dos meus bebês.

Minha gestação gemelar foi rara. Entre os médicos ela é chamada de gravidez gemelar monocoriônica/monoamniótica, ou seja, os bebês se desenvolvem em apenas uma placenta e uma bolsa (o mais normal é rolar uma placenta e duas bolsas). Apenas 1 a cada 30 ou 60 mil gestações de gêmeos ocorre dessa forma. Para entender a raridade do caso, é muito possível que um ginecologista obstetra passe a vida toda como médico sem nunca se deparar com uma paciente grávida nessa condição. Isso explica a ignorância de médicos sobre o tema e, mais ainda, das pessoas comuns.

Além de rara, a gravidez mono/mono é considerada de alto risco para os bebês. Como não há divisão entre os fetos, existe uma chance muito alta de ocorrer um entrelaçamento dos cordões umbilicais. E quando isso acontece, os bebês não conseguem receber mais alimentação e nem oxigênio. E aí, isso mesmo, eles podem morrer.

Esse risco existe durante toda a gestação, mas fica mais forte a partir da 32ª semana. Por isso, a indicação médica – isso de quem estuda seriamente esses casos – é de interromper a gravidez entre a 32ª e a 33ª semana, quando o risco de óbito dos bebês passa a ser maior dentro da barriga da mãe do que fora dela.

Ainda bem que no meu caso eu tive o melhor acompanhamento pré-natal possível. Tive o cuidado da dra. Taísa Catania, que mesmo nova, me recebeu e me atendeu com a maturidade que muitos médicos mais velhos não tiveram comigo. E que estudou muito sobre a minha gestação, me passando a segurança necessária para seguir o mais tranquila possível. Além de poder fazer exames com profissionais especializados em gestações gemelares.

Mas mesmo com todo o cuidado do mundo, quando Pedro e Gabriel nasceram, os cordões deles estavam entrelaçados, com mais de um nó. Só descobrimos isso no parto, porque apesar dos inúmeros ultrassons, não era mais possível ver com perfeição os cordões umbilicais.

Felizmente os nós estavam frouxos, mas é impossível dizer em que momento eles podiam apertar. Sim, eles podiam seguir assim até o final da gravidez. Mas também podiam ficar mais firmes do dia para noite. E sinceramente, eu não queria pagar para ver.

 

Fontes: Site da Unicef, Prematuridade.com, Ebc.com

10 frases que uma mãe de gêmeos idênticos ouve – quase – todos os dias

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(foto: arquivo pessoal)

Ser mãe é ser bombardeada a todo minuto por perguntas e afirmações – nem sempre as mais gentis – de amigos e estranhos.  Você deve imaginar que para uma mãe de gêmeos, tudo vem em dose dupla, certo?

Pois é. Agora, devo dizer que para uma mãe de gêmeos idênticos a coisa vai para um nível que beira o insuportável. É sério, as pessoas não têm papas na língua, falam qualquer coisa, mesmo as mais horríveis e inconvenientes.

Para tentar deixar o clima lá no alto neste fim de 2015, resolvi listar aqui as pérolas que ouvi no último ano – tem coisa de quando eu estava grávida ainda. Algumas são engraçadas, outras doeram quando ouvi, mas a maioria é repetição da mesma ideia – povo, bora ser mais original quando falar com uma mãe de gêmeos idênticos, combinado?

Para os amigos que disseram qualquer coisa listada abaixo, eu perdoo vocês. Aos estranhos: mais filtro em 2016.

1 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal! E é um menino e uma menina?”

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– Você entendeu o conceito de idênticos, certo?

2 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal. E os dois têm olhos claros ou só um deles?”

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3 – “Eles são idênticos?

Sim!

e coloque qualquer frase a sua escolha”

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– Pessoal, vamos recapitular: gêmeos idênticos possuem o mesmo DNA. Eles podem até ter uma coisinha diferente, por conta da alguma formação que não seja genética. Mas tudo o que for definido pelo gene (como cor dos olhos, cor de cabelo e até as covinhas), se um tiver,  o outro também tem. Sabe clone? Então, são meus filhos.

4 – “Qual dos dois têm gêmeos na família?

Nenhum de nós.

Ah…”

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– É sempre engraçado ver a cara de “me enganaram na escola quando aprendi sobre gêmeos” das pessoas…

5 – “Tadinhos. São tão pequenos, né?!”

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– Cri… cri… cri…

6 – “Pena que não são um casal. Seria bem melhor, né?!”

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– Não são um casal segundo quem? Já ouviu falar que homem e homem também podem formar um casal? Vamos modernizar as relações…

7 – “Que lindos! Como eles nasceram tão lindos assim?”

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– De mim que não foi, pelo visto, afinal sou o cão chupando manga do avesso. Obrigada por me mostrar isso…

8 – “Ih, eles serão prematuros? Você sabe que eles podem ter várias sequelas por isso, né?”

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– Sequelado é o senhor, que tem a sensibilidade de um javali.

9 – “São duas meninas ou um menino e uma menina?”

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– Ainda não descobri qual dos meninos as pessoas sempre pensam ser uma menina…

10 – “Quantos meses eles têm? 5 ?

Não, acabaram de fazer 11.

Nossa, é que eu não faço ideia de tamanho de bebê”

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– Então porque você arrisca a idade deles, não é mesmo?

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*todos os gifs foram baixados do site giphy.com

Parto cesárea humanizado – isso existe

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Pedro e Gabriel ainda na sala de parto, minutos antes de seguirem para a UTI (Foto: Bernardo Borges)

A princípio meu parto não ocorreu como eu queria. Explico. Antes mesmo de engravidar, imaginava que teria um parto normal. Seguiria para o hospital quando começasse a sentir contrações. Após um período de dor intensa, receberia meu bebê nos braços, em meio a lágrimas e sorrisos. Tipo cena de novela mesmo. Meu filho viria na hora dele. Mas aí descobri que estava esperando gêmeos e que minha gestação era de risco.

Tudo mudou.

Sim, eu teria que marcar a data do parto. Sim, teria que fazer uma cesárea. Sim, meus filhos teriam que nascer prematuros. Sim, isso significava que eles não estavam prontos para nascer e precisariam de cuidados imediatos.

Apesar de tantos “SIM”, a parte mais linda do meu parto veio de um sonoro “não” da minha obstetra e da pediatra que escolhi para os bebês. Não, eles não precisariam ir correndo para a UTI. Eu poderia ficar com eles, se tudo corresse bem.

E tudo correu bem.

Mesmo sem nunca ter sonhado com isso – nem imaginar que isso existia -, tive um parto cesárea humanizado. E às 18h43 daquele sábado, 10 de janeiro de 2015, Pedro nasceu e veio direto para os meus braços. Apenas um minuto e meio depois, Gabriel também pode ficar comigo. Os dois permaneceram ali, ligados a mim, literalmente – os cordões umbilicais continuaram conectados com a minha placenta por no mínimo 3 minutos -, e deitados sobre meu peito por cerca de 10 minutos. Os minutos mais longos e transformadores da minha vida. Tive um parto prematuro diferente da maioria. E sobre isso, só tenho a agradecer!

*Agraecimentos especiais: Taísa Catania (minha obstetra e amiga mais do que amada) e Silvia Maia (pediatra dos meninos e parceira de toda hora)

São gêmeos! E agora?!

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20 de agosto de 2014. A data ficou marcada na memória, porque foi o dia que minha vida mudou completamente.

Deitada na sala de exames, meu coração estava disparado. Acabara de terminar o primeiro trimestre da gravidez e finalmente veria a carinha do meu bebê – sim, bebê mesmo, no singular! Mais do que isso, o exame morfológico do terceiro trimestre detectaria alguma má formação do feto e isso me deixava apreensiva.

– Bom dia mãe, vamos começar. Vai ser um pouco gelado no começo, não se assuste.

Mal sabia que o principal susto seria muito mais do que o gel gelado na minha barriga.

E segue o diálogo:

– São dois, né?! – perguntou a enfermeira.

– Não, é um só! – respondi.

– Sim, são dois! – ela insistiu.

– Não, tenho certeza, é um só! – retruquei impaciente.

– Olha aqui. São dois: o primeiro (ela passou o ultrassom no lado esquerdo da minha barriga) e o segundo (deslizando para o lado direito).

Perplexa, ainda não acreditava. Na minha cabeça, a enfermeira estava zoando, me mostrando o exame da paciente anterior.

– São gêmeos sim e já vou avisando, porque sei que você vai sair daqui e olhar no google. Eles estão dividindo a mesma placenta e a mesma bolsa. Você tem uma gravidez de risco, eles terão que nascer prematuros.

Olhava para o meu marido incrédula. Parei de escutar na parte do: são gêmeos. Não compreendia como isso podia estar acontecendo. Nunca pensei em ter gêmeos, pelo contrário, sempre dizia que não queria isso.

Saí da sala em estado de choque. Passei o dia no trabalho mostrando meu exame para todos os colegas, era uma tentativa de tentar compreender o que estava acontecendo.

A noite, já em casa, eu chorava, copiosamente, com medo do futuro. Sempre quis engravidar, mas de gêmeos? Como era possível cuidar de dois bebês ao mesmo tempo? E o enxoval? E a amamentação? E as fraldas? E a escola? E a faculdade? E as viagens? E as idas ao cinema? E as saídas para os restaurantes? E a vida, como seria a partir de agora?