Por que tive filhos prematuros

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(Foto: arquivo pessoal)

O esperado é que uma gestação dure 9 meses, ou as incompreensíveis 40 semanas (ok, na real pode variar entre 38 e 42 semanas).  Mas em alguns casos – 15 milhões espalhados pelo mundo, sendo cerca de 340 mil no Brasil, tudo isso por ano –, a gestação dura menos tempo que o esperado. Ou seja, o bebê nasce prematuro.

Em 2015, eu fiz parte desta estatística e não foi fácil. Mas, mais do que ver seu filho vir antes do tempo, e temer as sequelas que ele pode ter por decorrência disso, o difícil mesmo é ouvir as opiniões alheias sobre esse fato.

Eu sempre soube que eles seriam prematuros (somente 30% dos casos de nascimentos prematuros têm explicação científica e eu era um desses casos J) e, talvez por ingenuidade minha, eu gostava de explicar para as pessoas isso. Mas eu sofria muito com as opiniões, afinal, mais do que o clássico “é normal, gêmeos sempre nascem antes do tempo” (ATENÇÃO: isso não é uma regra), eu ouvi de muitas pessoas o quão errado e perigoso era antecipar o parto. E não era qualquer que pessoa: ouvi de médicos essa afirmação (uma vez, inclusive, em pleno natal, duas semanas antes dos meninos nascerem).

Agora, direi algo surpreendente: eu não pedi para que meus filhos fossem prematuros e sempre soube que eles poderiam sofrer com isso. Mas sabe, no meu caso, era isso ou uma consequência bastante definitiva: a morte dos meus bebês.

Minha gestação gemelar foi rara. Entre os médicos ela é chamada de gravidez gemelar monocoriônica/monoamniótica, ou seja, os bebês se desenvolvem em apenas uma placenta e uma bolsa (o mais normal é rolar uma placenta e duas bolsas). Apenas 1 a cada 30 ou 60 mil gestações de gêmeos ocorre dessa forma. Para entender a raridade do caso, é muito possível que um ginecologista obstetra passe a vida toda como médico sem nunca se deparar com uma paciente grávida nessa condição. Isso explica a ignorância de médicos sobre o tema e, mais ainda, das pessoas comuns.

Além de rara, a gravidez mono/mono é considerada de alto risco para os bebês. Como não há divisão entre os fetos, existe uma chance muito alta de ocorrer um entrelaçamento dos cordões umbilicais. E quando isso acontece, os bebês não conseguem receber mais alimentação e nem oxigênio. E aí, isso mesmo, eles podem morrer.

Esse risco existe durante toda a gestação, mas fica mais forte a partir da 32ª semana. Por isso, a indicação médica – isso de quem estuda seriamente esses casos – é de interromper a gravidez entre a 32ª e a 33ª semana, quando o risco de óbito dos bebês passa a ser maior dentro da barriga da mãe do que fora dela.

Ainda bem que no meu caso eu tive o melhor acompanhamento pré-natal possível. Tive o cuidado da dra. Taísa Catania, que mesmo nova, me recebeu e me atendeu com a maturidade que muitos médicos mais velhos não tiveram comigo. E que estudou muito sobre a minha gestação, me passando a segurança necessária para seguir o mais tranquila possível. Além de poder fazer exames com profissionais especializados em gestações gemelares.

Mas mesmo com todo o cuidado do mundo, quando Pedro e Gabriel nasceram, os cordões deles estavam entrelaçados, com mais de um nó. Só descobrimos isso no parto, porque apesar dos inúmeros ultrassons, não era mais possível ver com perfeição os cordões umbilicais.

Felizmente os nós estavam frouxos, mas é impossível dizer em que momento eles podiam apertar. Sim, eles podiam seguir assim até o final da gravidez. Mas também podiam ficar mais firmes do dia para noite. E sinceramente, eu não queria pagar para ver.

 

Fontes: Site da Unicef, Prematuridade.com, Ebc.com

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São gêmeos! E agora?!

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20 de agosto de 2014. A data ficou marcada na memória, porque foi o dia que minha vida mudou completamente.

Deitada na sala de exames, meu coração estava disparado. Acabara de terminar o primeiro trimestre da gravidez e finalmente veria a carinha do meu bebê – sim, bebê mesmo, no singular! Mais do que isso, o exame morfológico do terceiro trimestre detectaria alguma má formação do feto e isso me deixava apreensiva.

– Bom dia mãe, vamos começar. Vai ser um pouco gelado no começo, não se assuste.

Mal sabia que o principal susto seria muito mais do que o gel gelado na minha barriga.

E segue o diálogo:

– São dois, né?! – perguntou a enfermeira.

– Não, é um só! – respondi.

– Sim, são dois! – ela insistiu.

– Não, tenho certeza, é um só! – retruquei impaciente.

– Olha aqui. São dois: o primeiro (ela passou o ultrassom no lado esquerdo da minha barriga) e o segundo (deslizando para o lado direito).

Perplexa, ainda não acreditava. Na minha cabeça, a enfermeira estava zoando, me mostrando o exame da paciente anterior.

– São gêmeos sim e já vou avisando, porque sei que você vai sair daqui e olhar no google. Eles estão dividindo a mesma placenta e a mesma bolsa. Você tem uma gravidez de risco, eles terão que nascer prematuros.

Olhava para o meu marido incrédula. Parei de escutar na parte do: são gêmeos. Não compreendia como isso podia estar acontecendo. Nunca pensei em ter gêmeos, pelo contrário, sempre dizia que não queria isso.

Saí da sala em estado de choque. Passei o dia no trabalho mostrando meu exame para todos os colegas, era uma tentativa de tentar compreender o que estava acontecendo.

A noite, já em casa, eu chorava, copiosamente, com medo do futuro. Sempre quis engravidar, mas de gêmeos? Como era possível cuidar de dois bebês ao mesmo tempo? E o enxoval? E a amamentação? E as fraldas? E a escola? E a faculdade? E as viagens? E as idas ao cinema? E as saídas para os restaurantes? E a vida, como seria a partir de agora?

Começando

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(foto: Bernardo Borges)

Em 20 de agosto de 2014, descobri que estava grávida de gêmeos. Todas as minhas expectativas e planos de gravidez tinham ido por água abaixo. E com esse tapa na cara da vida, cresceu em mim uma vontade enorme de relatar o que eu estava vivendo, de uma forma mais real – e não cheia de romance como costumam ser os relatos sobre gravidez e vida de mãe.

Demorei muito para conseguir fazer essa ideia virar realidade, mas finalmente aconteceu. Um ano e quatro meses depois, eis que hoje estreio o meu primeiro blog: Uma Mãe de Dois.

Espero que gostem da leitura, dos vídeos, das fotos, dos relatos. 🙂