Uma porta sem enfeite

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Na minha porta não havia enfeite. Lembro que quando fui visitar minha cunhada na maternidade, tempos antes, observei um detalhe na decoração igual e monocromática do ambiente: os enfeites pendurados nas portas. Antes de entrar para conhecer minha sobrinha, andei pelo andar, para ver como havia ficado cada porta que guardava um novo bebê que acabara de nascer. Era uma futilidade, dessas coisas que são desperdício de dinheiro mesmo, mas quando entramos no jogo da maternidade, queremos todos esses mimos.

Uma porta branca, meio rococó. Todos os quartos tinham essa mesma porta, mas sempre com um detalhe diferente: o tal enfeite com o nome da criança que estaria ali. Rosa ou lilás para as meninas e azul, amarelo ou verde para os meninos. Eu também queria que minha porta fosse diferente.

“Será que tem pra gêmeos?”. Mas qual seria o sentido? As visitas naquele quarto não iam encontrar nenhum bebê, pelo menos não enquanto eu estivesse ali. Meus bebês não podiam receber visita. Estavam na Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) neonatal, por terem nascido prematuramente.

O telefone toca. É mais uma amiga que faz questão de estar por perto nesse momento delicado e importante da minha vida. “Claro, pode vir. O número do quarto é o 1015. É fácil reconhecer. É o da porta sem enfeite”.

 

 

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Um berço vazio

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Oito de janeiro de dois mil e quinze. Dei entrada na maternidade.

Estava muito quente e sentia o meu corpo todo inchar. Depois de mais de cinco horas esperando vagar um quarto no hospital, o ossinho do meu tornozelo já havia sido engolido por uma massa que afundava ao menor toque.

Finalmente consegui um quarto – quinto andar, um dos muitos ocupados pela maternidade. O quarto era muito semelhante a qualquer outro dentro daquele hospital, mas algo chamou minha atenção. Um berço ao lado da cama. A lógica era que ao dar a luz, a mãe voltasse para o quarto e, horas depois, recebesse seu filho ali. Mas desta vez a lógica não se aplicaria e eu já sabia disso.

“Você pode tirar esse berço daqui? Não vamos usá-lo.”

Não podiam me atender: normas do hospital. “Mas eu já sei que meus filhos não virão para cá, vão direto para a UTI.” A negativa continuava. “Infelizmente”, a enfermeira lamentou.

Por mais que eu soubesse que meus filhos não iriam para o quarto, aquele berço, ali, era a realidade batendo à porta, entrando e me dando um soco no estômago. Nenhum bebê naquele quarto ocuparia o berço ao lado da cama. E isso me entristecia.

10 frases que uma mãe de gêmeos idênticos ouve – quase – todos os dias

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(foto: arquivo pessoal)

Ser mãe é ser bombardeada a todo minuto por perguntas e afirmações – nem sempre as mais gentis – de amigos e estranhos.  Você deve imaginar que para uma mãe de gêmeos, tudo vem em dose dupla, certo?

Pois é. Agora, devo dizer que para uma mãe de gêmeos idênticos a coisa vai para um nível que beira o insuportável. É sério, as pessoas não têm papas na língua, falam qualquer coisa, mesmo as mais horríveis e inconvenientes.

Para tentar deixar o clima lá no alto neste fim de 2015, resolvi listar aqui as pérolas que ouvi no último ano – tem coisa de quando eu estava grávida ainda. Algumas são engraçadas, outras doeram quando ouvi, mas a maioria é repetição da mesma ideia – povo, bora ser mais original quando falar com uma mãe de gêmeos idênticos, combinado?

Para os amigos que disseram qualquer coisa listada abaixo, eu perdoo vocês. Aos estranhos: mais filtro em 2016.

1 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal! E é um menino e uma menina?”

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– Você entendeu o conceito de idênticos, certo?

2 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal. E os dois têm olhos claros ou só um deles?”

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3 – “Eles são idênticos?

Sim!

e coloque qualquer frase a sua escolha”

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– Pessoal, vamos recapitular: gêmeos idênticos possuem o mesmo DNA. Eles podem até ter uma coisinha diferente, por conta da alguma formação que não seja genética. Mas tudo o que for definido pelo gene (como cor dos olhos, cor de cabelo e até as covinhas), se um tiver,  o outro também tem. Sabe clone? Então, são meus filhos.

4 – “Qual dos dois têm gêmeos na família?

Nenhum de nós.

Ah…”

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– É sempre engraçado ver a cara de “me enganaram na escola quando aprendi sobre gêmeos” das pessoas…

5 – “Tadinhos. São tão pequenos, né?!”

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– Cri… cri… cri…

6 – “Pena que não são um casal. Seria bem melhor, né?!”

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– Não são um casal segundo quem? Já ouviu falar que homem e homem também podem formar um casal? Vamos modernizar as relações…

7 – “Que lindos! Como eles nasceram tão lindos assim?”

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– De mim que não foi, pelo visto, afinal sou o cão chupando manga do avesso. Obrigada por me mostrar isso…

8 – “Ih, eles serão prematuros? Você sabe que eles podem ter várias sequelas por isso, né?”

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– Sequelado é o senhor, que tem a sensibilidade de um javali.

9 – “São duas meninas ou um menino e uma menina?”

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– Ainda não descobri qual dos meninos as pessoas sempre pensam ser uma menina…

10 – “Quantos meses eles têm? 5 ?

Não, acabaram de fazer 11.

Nossa, é que eu não faço ideia de tamanho de bebê”

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– Então porque você arrisca a idade deles, não é mesmo?

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*todos os gifs foram baixados do site giphy.com

Parto cesárea humanizado – isso existe

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Pedro e Gabriel ainda na sala de parto, minutos antes de seguirem para a UTI (Foto: Bernardo Borges)

A princípio meu parto não ocorreu como eu queria. Explico. Antes mesmo de engravidar, imaginava que teria um parto normal. Seguiria para o hospital quando começasse a sentir contrações. Após um período de dor intensa, receberia meu bebê nos braços, em meio a lágrimas e sorrisos. Tipo cena de novela mesmo. Meu filho viria na hora dele. Mas aí descobri que estava esperando gêmeos e que minha gestação era de risco.

Tudo mudou.

Sim, eu teria que marcar a data do parto. Sim, teria que fazer uma cesárea. Sim, meus filhos teriam que nascer prematuros. Sim, isso significava que eles não estavam prontos para nascer e precisariam de cuidados imediatos.

Apesar de tantos “SIM”, a parte mais linda do meu parto veio de um sonoro “não” da minha obstetra e da pediatra que escolhi para os bebês. Não, eles não precisariam ir correndo para a UTI. Eu poderia ficar com eles, se tudo corresse bem.

E tudo correu bem.

Mesmo sem nunca ter sonhado com isso – nem imaginar que isso existia -, tive um parto cesárea humanizado. E às 18h43 daquele sábado, 10 de janeiro de 2015, Pedro nasceu e veio direto para os meus braços. Apenas um minuto e meio depois, Gabriel também pode ficar comigo. Os dois permaneceram ali, ligados a mim, literalmente – os cordões umbilicais continuaram conectados com a minha placenta por no mínimo 3 minutos -, e deitados sobre meu peito por cerca de 10 minutos. Os minutos mais longos e transformadores da minha vida. Tive um parto prematuro diferente da maioria. E sobre isso, só tenho a agradecer!

*Agraecimentos especiais: Taísa Catania (minha obstetra e amiga mais do que amada) e Silvia Maia (pediatra dos meninos e parceira de toda hora)

Senado aprova lei que determina extensão de licença maternidade para mães de prematuros

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Pedro na UTI do hospital São Luiz (Foto: Arquivo pessoal)

Taí uma vitória. Na última quarta-feira (9/12), o Senado aprovou a Proposta de Emenda à Constituição 99/2015, de autoria do senador do PSDB Aécio Neves, que determina uma maior licença maternidade para mães que tiverem filhos prematuros. De acordo com a proposta, a licença obrigatória de 120 dias começaria a valer a partir da alta do bebê do hospital.

Um acordo com o governo, para assegurar a votação da PEC, incluiu emenda restringindo a licença ao tempo máximo de 12 meses – sendo 120 dias de licença e oito meses de internação.

Vale lembrar que a proposta atinge apenas as mães com filhos nascidos entre a 20ª e a 30ª semanas. O texto ainda precisa ser aprovado na Câmara dos Deputados para entrar em vigor.

Infelizmente, se já estivesse em vigor, essa nova lei não valeria para mim. Gabriel e Pedro nasceram de 32 semanas e acabaram ficando 51 dias no hospital. 51 dias de um tempo precioso que poderia gastar com eles em casa, dando muita atenção, carinho, amor e estimulando o desenvolvimento deles.

De qualquer forma, sim, isso é uma vitória excepcional. No tempo que fiquei no hospital, conheci mães que perderam toda a licença maternidade – e as vezes até mais – aguardando a alta do seu filho. Tempo esse que jamais será recuperado e que seria essencial para o desenvolvimento do bebês. Afinal, nesse período, além de poder garantir a amamentação em tempo integral, a mãe e seu bebê também estabelecem uma relação de amor e afeto que, segundo especialistas, é essencial para que ele se sinta seguro, acolhido e amado, além de estimular conexões neurais em seu cérebro, que serão fundamentais para a sua inteligência emocional.

Que a Câmara, apesar de viver o seu pior momento e abrigar os piores seres humanos em seu interior, tenha sabedoria para aprovar essa PEC que, sem exageros, é essencial para o futuro desse país.

São gêmeos! E agora?!

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20 de agosto de 2014. A data ficou marcada na memória, porque foi o dia que minha vida mudou completamente.

Deitada na sala de exames, meu coração estava disparado. Acabara de terminar o primeiro trimestre da gravidez e finalmente veria a carinha do meu bebê – sim, bebê mesmo, no singular! Mais do que isso, o exame morfológico do terceiro trimestre detectaria alguma má formação do feto e isso me deixava apreensiva.

– Bom dia mãe, vamos começar. Vai ser um pouco gelado no começo, não se assuste.

Mal sabia que o principal susto seria muito mais do que o gel gelado na minha barriga.

E segue o diálogo:

– São dois, né?! – perguntou a enfermeira.

– Não, é um só! – respondi.

– Sim, são dois! – ela insistiu.

– Não, tenho certeza, é um só! – retruquei impaciente.

– Olha aqui. São dois: o primeiro (ela passou o ultrassom no lado esquerdo da minha barriga) e o segundo (deslizando para o lado direito).

Perplexa, ainda não acreditava. Na minha cabeça, a enfermeira estava zoando, me mostrando o exame da paciente anterior.

– São gêmeos sim e já vou avisando, porque sei que você vai sair daqui e olhar no google. Eles estão dividindo a mesma placenta e a mesma bolsa. Você tem uma gravidez de risco, eles terão que nascer prematuros.

Olhava para o meu marido incrédula. Parei de escutar na parte do: são gêmeos. Não compreendia como isso podia estar acontecendo. Nunca pensei em ter gêmeos, pelo contrário, sempre dizia que não queria isso.

Saí da sala em estado de choque. Passei o dia no trabalho mostrando meu exame para todos os colegas, era uma tentativa de tentar compreender o que estava acontecendo.

A noite, já em casa, eu chorava, copiosamente, com medo do futuro. Sempre quis engravidar, mas de gêmeos? Como era possível cuidar de dois bebês ao mesmo tempo? E o enxoval? E a amamentação? E as fraldas? E a escola? E a faculdade? E as viagens? E as idas ao cinema? E as saídas para os restaurantes? E a vida, como seria a partir de agora?

Começando

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(foto: Bernardo Borges)

Em 20 de agosto de 2014, descobri que estava grávida de gêmeos. Todas as minhas expectativas e planos de gravidez tinham ido por água abaixo. E com esse tapa na cara da vida, cresceu em mim uma vontade enorme de relatar o que eu estava vivendo, de uma forma mais real – e não cheia de romance como costumam ser os relatos sobre gravidez e vida de mãe.

Demorei muito para conseguir fazer essa ideia virar realidade, mas finalmente aconteceu. Um ano e quatro meses depois, eis que hoje estreio o meu primeiro blog: Uma Mãe de Dois.

Espero que gostem da leitura, dos vídeos, das fotos, dos relatos. 🙂