Idênticos sim. Iguais? Nem tanto!

gêmeos no balde

Gabriel e Pedro iguais e ao mesmo tempo diferentes (fonte: arquivo pessoal)

Pedro e Gabriel são gêmeos idênticos. Por definição eles carregam o mesmo código genético — ou seja, o mesmo DNA. No imaginário popular, é comum pensar que por eles serem idênticos devessem ter o mesmo comportamento e/ou o mesmo desenvolvimento motor e intelectual.

É certo que uma das perguntas que mais me fazem (depois do costumeiro “são idênticos?”, seguido diretamente do “são dois meninos ou um menino e uma menina?”) é se eles se comportam da mesma maneira. A resposta é: não! O intenso convívio me permite ter surpresas diárias com tamanha diferença que existe entre os dois.

Acompanhar e participar ativamente do crescimento dessas duas pessoinhas geneticamente idênticas é uma aula diária de como o meio parece ser determinante para o desenvolvimento de alguém.

Calma, eu não nego de jeito nenhum a biologia e suas teorias evolutivas, que apontam que muitos de nossos comportamentos são inerentes a nós. Concordo que os genes não definiram apenas a cor dos olhos dos meus filhos – aliás, que combinação genética, senhores, afinal eles têm olhos cinzas! Se não, como explicar o olhar de malandro pidão do Pedro ser exatamente como o meu, como diz meu sogro…

Mas é inegável que o meio influencia diretamente o nosso comportamento. Afinal, como  explicar que mesmo tendo os mesmos pais, comendo as refeições no mesmo horário, tendo a mesma babá, os mesmos avós, dormindo no mesmo quarto e tomando banho no mesmo balde, Pedro e Gabriel sejam sim idênticos e ao mesmo tempo tão diferentes?

É que, enquanto Pedro fica tímido ao chegar numa festa e fica se entrelaçando nas minhas pernas, Gabriel sente o ambiente e logo sai andando, interagindo com estranhos. Ou então, como explicar toda a manha que o Pedro faz quando recebe uma negativa ou quando lhe tiram o brinquedo e a quase indiferença de Gabriel quando o irmão pega alguma coisa sua?

Qual a conclusão disso tudo? Não sei exatamente. Talvez a gente nunca consiga definir 100% o que define o ser humano: é só genética? É só o meio? É o meio influenciando na genética ou a genética que influencia no meio? Isso, porque como diz um amigo, muitos estudos que confirmariam o quanto a genética pode determinar o nosso comportamento não podem ser feitos, porque nossa ética não permite matar um bebê para estudar o genoma dele – ufa!

É por isso, meus amigos, que talvez, no fim das contas, mensurar o quanto a biologia ou a cultura é determinante no comportamento seja mais uma crença que tomamos para nós do que uma comprovação científica. E aí, no que você prefere acreditar?

gif twins

(fonte: giphy.com)

Link adicional: Série de fotos mostra as diferenças dos gêmeos idênticos

Anúncios

Por que tive filhos prematuros

gemeos-piscina

(Foto: arquivo pessoal)

O esperado é que uma gestação dure 9 meses, ou as incompreensíveis 40 semanas (ok, na real pode variar entre 38 e 42 semanas).  Mas em alguns casos – 15 milhões espalhados pelo mundo, sendo cerca de 340 mil no Brasil, tudo isso por ano –, a gestação dura menos tempo que o esperado. Ou seja, o bebê nasce prematuro.

Em 2015, eu fiz parte desta estatística e não foi fácil. Mas, mais do que ver seu filho vir antes do tempo, e temer as sequelas que ele pode ter por decorrência disso, o difícil mesmo é ouvir as opiniões alheias sobre esse fato.

Eu sempre soube que eles seriam prematuros (somente 30% dos casos de nascimentos prematuros têm explicação científica e eu era um desses casos J) e, talvez por ingenuidade minha, eu gostava de explicar para as pessoas isso. Mas eu sofria muito com as opiniões, afinal, mais do que o clássico “é normal, gêmeos sempre nascem antes do tempo” (ATENÇÃO: isso não é uma regra), eu ouvi de muitas pessoas o quão errado e perigoso era antecipar o parto. E não era qualquer que pessoa: ouvi de médicos essa afirmação (uma vez, inclusive, em pleno natal, duas semanas antes dos meninos nascerem).

Agora, direi algo surpreendente: eu não pedi para que meus filhos fossem prematuros e sempre soube que eles poderiam sofrer com isso. Mas sabe, no meu caso, era isso ou uma consequência bastante definitiva: a morte dos meus bebês.

Minha gestação gemelar foi rara. Entre os médicos ela é chamada de gravidez gemelar monocoriônica/monoamniótica, ou seja, os bebês se desenvolvem em apenas uma placenta e uma bolsa (o mais normal é rolar uma placenta e duas bolsas). Apenas 1 a cada 30 ou 60 mil gestações de gêmeos ocorre dessa forma. Para entender a raridade do caso, é muito possível que um ginecologista obstetra passe a vida toda como médico sem nunca se deparar com uma paciente grávida nessa condição. Isso explica a ignorância de médicos sobre o tema e, mais ainda, das pessoas comuns.

Além de rara, a gravidez mono/mono é considerada de alto risco para os bebês. Como não há divisão entre os fetos, existe uma chance muito alta de ocorrer um entrelaçamento dos cordões umbilicais. E quando isso acontece, os bebês não conseguem receber mais alimentação e nem oxigênio. E aí, isso mesmo, eles podem morrer.

Esse risco existe durante toda a gestação, mas fica mais forte a partir da 32ª semana. Por isso, a indicação médica – isso de quem estuda seriamente esses casos – é de interromper a gravidez entre a 32ª e a 33ª semana, quando o risco de óbito dos bebês passa a ser maior dentro da barriga da mãe do que fora dela.

Ainda bem que no meu caso eu tive o melhor acompanhamento pré-natal possível. Tive o cuidado da dra. Taísa Catania, que mesmo nova, me recebeu e me atendeu com a maturidade que muitos médicos mais velhos não tiveram comigo. E que estudou muito sobre a minha gestação, me passando a segurança necessária para seguir o mais tranquila possível. Além de poder fazer exames com profissionais especializados em gestações gemelares.

Mas mesmo com todo o cuidado do mundo, quando Pedro e Gabriel nasceram, os cordões deles estavam entrelaçados, com mais de um nó. Só descobrimos isso no parto, porque apesar dos inúmeros ultrassons, não era mais possível ver com perfeição os cordões umbilicais.

Felizmente os nós estavam frouxos, mas é impossível dizer em que momento eles podiam apertar. Sim, eles podiam seguir assim até o final da gravidez. Mas também podiam ficar mais firmes do dia para noite. E sinceramente, eu não queria pagar para ver.

 

Fontes: Site da Unicef, Prematuridade.com, Ebc.com

10 frases que uma mãe de gêmeos idênticos ouve – quase – todos os dias

gemeos-post-frases

(foto: arquivo pessoal)

Ser mãe é ser bombardeada a todo minuto por perguntas e afirmações – nem sempre as mais gentis – de amigos e estranhos.  Você deve imaginar que para uma mãe de gêmeos, tudo vem em dose dupla, certo?

Pois é. Agora, devo dizer que para uma mãe de gêmeos idênticos a coisa vai para um nível que beira o insuportável. É sério, as pessoas não têm papas na língua, falam qualquer coisa, mesmo as mais horríveis e inconvenientes.

Para tentar deixar o clima lá no alto neste fim de 2015, resolvi listar aqui as pérolas que ouvi no último ano – tem coisa de quando eu estava grávida ainda. Algumas são engraçadas, outras doeram quando ouvi, mas a maioria é repetição da mesma ideia – povo, bora ser mais original quando falar com uma mãe de gêmeos idênticos, combinado?

Para os amigos que disseram qualquer coisa listada abaixo, eu perdoo vocês. Aos estranhos: mais filtro em 2016.

1 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal! E é um menino e uma menina?”

frase-1

– Você entendeu o conceito de idênticos, certo?

2 – “São idênticos?

Sim!

Ah, que legal. E os dois têm olhos claros ou só um deles?”

frase-2

3 – “Eles são idênticos?

Sim!

e coloque qualquer frase a sua escolha”

frase-3

– Pessoal, vamos recapitular: gêmeos idênticos possuem o mesmo DNA. Eles podem até ter uma coisinha diferente, por conta da alguma formação que não seja genética. Mas tudo o que for definido pelo gene (como cor dos olhos, cor de cabelo e até as covinhas), se um tiver,  o outro também tem. Sabe clone? Então, são meus filhos.

4 – “Qual dos dois têm gêmeos na família?

Nenhum de nós.

Ah…”

frase-4

– É sempre engraçado ver a cara de “me enganaram na escola quando aprendi sobre gêmeos” das pessoas…

5 – “Tadinhos. São tão pequenos, né?!”

frase-5

– Cri… cri… cri…

6 – “Pena que não são um casal. Seria bem melhor, né?!”

frase-6

– Não são um casal segundo quem? Já ouviu falar que homem e homem também podem formar um casal? Vamos modernizar as relações…

7 – “Que lindos! Como eles nasceram tão lindos assim?”

frase-7-2

– De mim que não foi, pelo visto, afinal sou o cão chupando manga do avesso. Obrigada por me mostrar isso…

8 – “Ih, eles serão prematuros? Você sabe que eles podem ter várias sequelas por isso, né?”

frase-8

– Sequelado é o senhor, que tem a sensibilidade de um javali.

9 – “São duas meninas ou um menino e uma menina?”

frase-9

– Ainda não descobri qual dos meninos as pessoas sempre pensam ser uma menina…

10 – “Quantos meses eles têm? 5 ?

Não, acabaram de fazer 11.

Nossa, é que eu não faço ideia de tamanho de bebê”

frase-10

– Então porque você arrisca a idade deles, não é mesmo?

gif-final

*todos os gifs foram baixados do site giphy.com

Parto cesárea humanizado – isso existe

parto-meninos

Pedro e Gabriel ainda na sala de parto, minutos antes de seguirem para a UTI (Foto: Bernardo Borges)

A princípio meu parto não ocorreu como eu queria. Explico. Antes mesmo de engravidar, imaginava que teria um parto normal. Seguiria para o hospital quando começasse a sentir contrações. Após um período de dor intensa, receberia meu bebê nos braços, em meio a lágrimas e sorrisos. Tipo cena de novela mesmo. Meu filho viria na hora dele. Mas aí descobri que estava esperando gêmeos e que minha gestação era de risco.

Tudo mudou.

Sim, eu teria que marcar a data do parto. Sim, teria que fazer uma cesárea. Sim, meus filhos teriam que nascer prematuros. Sim, isso significava que eles não estavam prontos para nascer e precisariam de cuidados imediatos.

Apesar de tantos “SIM”, a parte mais linda do meu parto veio de um sonoro “não” da minha obstetra e da pediatra que escolhi para os bebês. Não, eles não precisariam ir correndo para a UTI. Eu poderia ficar com eles, se tudo corresse bem.

E tudo correu bem.

Mesmo sem nunca ter sonhado com isso – nem imaginar que isso existia -, tive um parto cesárea humanizado. E às 18h43 daquele sábado, 10 de janeiro de 2015, Pedro nasceu e veio direto para os meus braços. Apenas um minuto e meio depois, Gabriel também pode ficar comigo. Os dois permaneceram ali, ligados a mim, literalmente – os cordões umbilicais continuaram conectados com a minha placenta por no mínimo 3 minutos -, e deitados sobre meu peito por cerca de 10 minutos. Os minutos mais longos e transformadores da minha vida. Tive um parto prematuro diferente da maioria. E sobre isso, só tenho a agradecer!

*Agraecimentos especiais: Taísa Catania (minha obstetra e amiga mais do que amada) e Silvia Maia (pediatra dos meninos e parceira de toda hora)

São gêmeos! E agora?!

ultrassom-1-trimestre-meninos

20 de agosto de 2014. A data ficou marcada na memória, porque foi o dia que minha vida mudou completamente.

Deitada na sala de exames, meu coração estava disparado. Acabara de terminar o primeiro trimestre da gravidez e finalmente veria a carinha do meu bebê – sim, bebê mesmo, no singular! Mais do que isso, o exame morfológico do terceiro trimestre detectaria alguma má formação do feto e isso me deixava apreensiva.

– Bom dia mãe, vamos começar. Vai ser um pouco gelado no começo, não se assuste.

Mal sabia que o principal susto seria muito mais do que o gel gelado na minha barriga.

E segue o diálogo:

– São dois, né?! – perguntou a enfermeira.

– Não, é um só! – respondi.

– Sim, são dois! – ela insistiu.

– Não, tenho certeza, é um só! – retruquei impaciente.

– Olha aqui. São dois: o primeiro (ela passou o ultrassom no lado esquerdo da minha barriga) e o segundo (deslizando para o lado direito).

Perplexa, ainda não acreditava. Na minha cabeça, a enfermeira estava zoando, me mostrando o exame da paciente anterior.

– São gêmeos sim e já vou avisando, porque sei que você vai sair daqui e olhar no google. Eles estão dividindo a mesma placenta e a mesma bolsa. Você tem uma gravidez de risco, eles terão que nascer prematuros.

Olhava para o meu marido incrédula. Parei de escutar na parte do: são gêmeos. Não compreendia como isso podia estar acontecendo. Nunca pensei em ter gêmeos, pelo contrário, sempre dizia que não queria isso.

Saí da sala em estado de choque. Passei o dia no trabalho mostrando meu exame para todos os colegas, era uma tentativa de tentar compreender o que estava acontecendo.

A noite, já em casa, eu chorava, copiosamente, com medo do futuro. Sempre quis engravidar, mas de gêmeos? Como era possível cuidar de dois bebês ao mesmo tempo? E o enxoval? E a amamentação? E as fraldas? E a escola? E a faculdade? E as viagens? E as idas ao cinema? E as saídas para os restaurantes? E a vida, como seria a partir de agora?

Começando

uma-mae-de-dois-apresentacao

(foto: Bernardo Borges)

Em 20 de agosto de 2014, descobri que estava grávida de gêmeos. Todas as minhas expectativas e planos de gravidez tinham ido por água abaixo. E com esse tapa na cara da vida, cresceu em mim uma vontade enorme de relatar o que eu estava vivendo, de uma forma mais real – e não cheia de romance como costumam ser os relatos sobre gravidez e vida de mãe.

Demorei muito para conseguir fazer essa ideia virar realidade, mas finalmente aconteceu. Um ano e quatro meses depois, eis que hoje estreio o meu primeiro blog: Uma Mãe de Dois.

Espero que gostem da leitura, dos vídeos, das fotos, dos relatos. 🙂