O medo de ser mãe de gêmeos

eu e os pequenops

(arquivo pessoal)

Na primeira noite dos meninos em casa, depois de 51 dias de hospital, eu chorei. Não chorei de felicidade. Não chorei de alívio. Não chorei de emoção. Eu chorei de medo! E esse medo se seguiu pelos dois meses seguintes, pelo menos é como eu me lembro.

Não é exagero. Mesmo recebendo a ajuda em tempo integral da minha mãe e a parceria incondicional do meu marido, me sentia totalmente sozinha e tinha certeza absoluta que não ia dar conta da minha nova vida. Fui tomada por um sentimento de impotência muito grande e isso era assustador.

Evitava as visitas. Quando me ligavam querendo conhecer os meninos, me sentia ansiosa. Fazia de tudo para que esses encontros não acontecessem. Suava frio quando estava perto da hora da visita chegar e comemorava, em silêncio, quando desmarcavam. Mesmo os amigos mais íntimos me deixavam em pânico (peço, inclusive, desculpas se me fiz distante).

Uma vez com os amigos em casa, não queria que fossem embora. Cada vez que a porta se fechava, depois dos abraços de despedida, o meu coração se enchia de solidão e mais uma vez, eu chorava.

Por dois meses, vivi um terror constante. Um misto de alegria por ser mãe, por ter Pedro e Gabriel em casa, pela realização do sonho de ter filho, se misturava com esse sentimento de impotência, com a certeza que não daria conta de criar dois bebês. “Por que isso foi acontecer? Eu nunca quis ter gêmeos, por que comigo?”, eu pensava todos os dias.

Mas o que é isso? Por que eu passei por esses questionamentos e medos, mesmo tendo certeza do que queria e de ter tido uma gravidez planejada?

Antes de ter filhos, eu pensava que o puerpério – nome dado à fase pós-parto, em que a mulher passa por modificações físicas e psíquicas – acontecia apenas no período imediatamente seguinte ao parto. Como passei esses primeiros dias acompanhando o desenvolvimento dos meninos no hospital, não imaginei que viveria o puerpério de verdade.

A bem verdade, se seguirmos ao pé da letra o que a medicina define como o puerpério, ele começa logo após o parto e se segue por até 6 semanas, ou 42 dias, para ser mais exata, quando a mulher retorna a sua função ovulatória, ou seja, reprodutiva. Nesse período, o corpo da mulher passa por diversas modificações físicas e as grandes oscilações hormonais também fazem com que a mulher passe por fortes questões emocionais. Não à toa, é comum ver as novas mães chorando pelos cantos, se sentindo tristes e melancólicas.

Hoje, entretanto, consigo perceber que as coisas não funcionam exatamente como estão nos livros – e isso não vale apenas para os contos de fada. Enquanto tentamos nos enquadrar nos diagnósticos apresentados pela literatura médica – e pelo Google também –, acabamos deixando de lado o que realmente estamos sentido, e no fim é isso o que importa, certo?

No meu caso, acho que posso dizer que o puerpério veio bem depois dos 42 dias estipulados pela rigidez da medicina. Claro que meu corpo viveu todas as mudanças físicas do período, mas a parte emocional teve que ser ignorada um pouco para dar lugar a rotina da UTI neo-natal.  Só fui processar tudo o que tinha passado até ali – uma gestação de risco, filhos prematuros, 51 dias de hospital –, quando finalmente levei os meninos para casa. E o que deveria ser um momento de felicidade extrema, se tornou em noites de medo e muita reflexão.

Não foram dias fáceis. Repensar a vontade de ser mãe e se questionar se aquilo realmente tinha sido certo, era terrível. Mas, passou – às vezes volta, mas é passageiro! Conversar com meu marido, minha mãe e amigos foi essencial. Poder me abrir e entender que aquele sentimento era normal, foi fundamental para conseguir superar tudo.

Com tudo isso, ficou bem claro para mim como é importante que cada pessoa consiga se ver como um ser único, um indivíduo. Não somos mães e pronto. Não somos todas farinha do mesmo saco, como as peças publicitárias querem mostrar ou como os ditos populares insistem pregar por aí. Nós somos únicas. Podemos trocar ensinamentos, e considero essencial isso, mas é fundamental entender que cada uma de nós terá a sua própria experiência. Que esse momento do pós-parto será sentido diferente por cada nova mãe que nasce junto com o seu filho.

Quer ler mais sobre isso. Vejam alguns textos sobre o puerpério e relatos de mães que quiseram falar sobre isso:

Precisamos falar sobre o puerpério

O que é puerpério?

Tudo sobre depressão pós-parto e baby blues

 

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Uma porta sem enfeite

porta-sem-enfeite

Na minha porta não havia enfeite. Lembro que quando fui visitar minha cunhada na maternidade, tempos antes, observei um detalhe na decoração igual e monocromática do ambiente: os enfeites pendurados nas portas. Antes de entrar para conhecer minha sobrinha, andei pelo andar, para ver como havia ficado cada porta que guardava um novo bebê que acabara de nascer. Era uma futilidade, dessas coisas que são desperdício de dinheiro mesmo, mas quando entramos no jogo da maternidade, queremos todos esses mimos.

Uma porta branca, meio rococó. Todos os quartos tinham essa mesma porta, mas sempre com um detalhe diferente: o tal enfeite com o nome da criança que estaria ali. Rosa ou lilás para as meninas e azul, amarelo ou verde para os meninos. Eu também queria que minha porta fosse diferente.

“Será que tem pra gêmeos?”. Mas qual seria o sentido? As visitas naquele quarto não iam encontrar nenhum bebê, pelo menos não enquanto eu estivesse ali. Meus bebês não podiam receber visita. Estavam na Unidade de Tratamento Intensiva (UTI) neonatal, por terem nascido prematuramente.

O telefone toca. É mais uma amiga que faz questão de estar por perto nesse momento delicado e importante da minha vida. “Claro, pode vir. O número do quarto é o 1015. É fácil reconhecer. É o da porta sem enfeite”.